23.4.08
o cmr d'alcoitao fez anos: aqui fica o teto lido por um veterano das inacessibilidades (como gosta de se auto-intitular este sr)
É com grande satisfação que, no 42º aniversário do CMRA, vos venho falar da minha experiência nesta CASA.

Sou portador de sequelas de poliomielite desde os 14 meses de idade. Aos nove 9 anos vim para cá, por um período de 1 ano, para efectuar a minha reabilitação física. Guardo desse tempo as melhores recordações, sobretudo pelo carinho com fui tratado por todos os profissionais que à data aqui trabalhavam.

Com apenas 9 anos, foram-me transmitidos ensinamentos que se revelaram determinantes para a minha integração na sociedade. Aqui aprendi a lidar com a minha condição física, a tentar ser o mais independente possível mas também saber pedir ajuda quando é necessário. Aprendi também a cair, a levantar-me e a continuar com determinação e força de vontade, MUITA FORÇA DE VONTADE!!!

Após a conclusão da reabilitação, voei pela vida fora, estudei, pratiquei desporto, iniciei a minha carreira profissional na CML, e fui pai de duas crianças fantásticas. Em 1998, fui viver para fora de Portugal (8 anos no Luxemburgo e 2 em Espanha), mais uma vez o tal conceito que me foi incutido de tentar ser o mais independente possível foi crucial, porque durante esses anos mantive alguma actividade profissional ligada ao meu país, o que me obrigava a constantes deslocações de carro ou de avião e que sempre fiz sozinho e com total autonomia.

Há cerca de 4 anos, contrai uma lesão no ombro direito que me obrigou a uma intervenção cirúrgica. Quando o meu médico, no Luxemburgo, me recomendou centros de reabilitação na Alemanha, Suíça e Itália, eu disse-lhe que já tinha decidido onde queria ser reabilitado dizendo-lhe: - Vou para Portugal para o CMRA e foi com muito orgulho que o ouvi dizer que ficava bem entregue, uma vez que tinha, deste centro, as melhores referências.

Neste segundo internamento e já com 36 anos, a perspectiva que tive foi diferente da anterior porque a maturidade ganha pela idade permitiu-me sentir o profissionalismo de todos que aqui trabalham, sobretudo aqueles que diariamente cuidam de nós: Enfermagem, fisioterapia, terapia ocupacional auxiliares, sempre baseado num extraordinário relacionamento interpessoal.

No contacto que fui mantendo com os outros utentes, foi nascendo em mim uma vontade de retribuir tudo o que aqui me foi dado, essa vontade materializou-se através do voluntariado, “Acessibilidades nas Conversas” e nas “3ªs feiras Desportivas”. Nestes projectos tento dar o melhor de mim mas, confesso que às vezes acabo por receber muito mais. O facto de sentir que, com experiência adquirida ao longo de 39 anos de cadeira de rodas, posso contribuir para minimizar alguns medos, incertezas e inseguranças de quem num minuto de infortúnio se viu privado da sua normal condição física é extremamente gratificante.

É com muito agrado que vejo o dinamismo imprimido na gestão desta CASA, sentido-se mudanças importantes ao nível das instalações e também da vontade de fazer mais e melhor, sinto que o centro se abre à comunidade e que está receptivo a novas ideias e projectos.

Gostaria que o desporto entrasse em força nesta CASA, porque sempre tive acesso à pratica desportiva e sei a importância que esta teve na melhoria da minha qualidade de vida e, por outro lado, pode funcionar como um importante veículo facilitador da inserção social ao permitir o contacto com pessoas portadoras de deficiência, plenamente integradas na sociedade. Penso também que, o desporto deveria ser encarado não como uma actividade meramente recreativa, mas como uma parte importante no processo de reabilitação.

Gostaria de deixar uma palavra de agradecimento, ao corpo clínico, à administração, aos enfermeiros, às assistentes sociais, aos terapeutas, auxiliares e a todos os funcionários em geral, pelo trabalho que todos os dias desenvolvem em prol do bem estar daqueles que por aqui passam.

Bem hajam por tudo!!!

E aos utentes gostaria de citar uma frase de um poeta da Roma Antiga, Horácio, que diz o seguinte:


A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas



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