3.1.08
balanço do ano
O ano balança-se? Não. Simplesmente vai-se embora, "Sem dizer adeus". Do Rui Tavares, escrito no "Público", no último dia de 2007, dedicado ao Olímpio (o homem que fazia livros):

«Achámos que o ano podia sair de cena. Mas ele não o fez sem uns dias antes nos demonstrar, através do assassinato de Benazir Bhutto, aquilo que já deveríamos saber: que tudo fica pendurado à espera de sentido.
Um ano que acaba é como uma pessoa antes de uma viagem inadiável mas com as malas por fazer, no meio de um quarto desalinhado e com os assuntos todos em aberto. Agora é tarde, 2007. Com vontade ou sem ela, vais ter de ir.
***
Perguntar-nos que espécie de balanço se pode extrair disto é que não é possível. Seria como interromper a leitura de um livro na página 89, ou na 127, ou naquelas de número primo, ou mesmo somente nas acabadas em zero, e querer tirar dessas circunstâncias qualquer significado.
Com agravantes. Porque um livro não é o tempo e não é a história. Nós não somos leitores da nossa vida. E muito menos, apesar de às vezes termos ilusões, somos dela autores.

Seremos talvez uma espécie de paginadores. O paginador, quando dá por preparado um livro, está sujeito à mesma lógica unidireccional que nós: só pode avançar na ordem crescente, da primeira para a última página, fechando cada uma à sua vez e sem voltar atrás. Trabalha noite fora, tomando decisões que — ele sabe — irão afectar tudo o que está para diante, mas sem adivinhar muito bem como, nem de que forma.

A diferença notória é que este é um livro que não se fecha, e no qual todos ficamos a meio. Vamos acumulando eventos e perdendo tempo. Somos empurrados para a frente sem outra escolha. Vivemos algumas alegrias, se as houver. E, em geral, vamos ganhando um coração magoado e a lembrança carregada de saudades. É pelos amigos que ficaram para trás, mas que ainda traremos conosco para 2008 e os mais anos que restarem, sempre futuro adentro.
»

Sempre futuro adentro.



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