15.10.07
salvar a palavra
Quantas conversas enchem os nossos dias? As conversas de corredor entre uma reunião e outra. As conversas de circunstância com este ou com aquele. As conversas de trabalho em que ninguém se entende. As conversas inesperadamente interessantes com aquela pessoa que nos é mais ou menos desconhecida. As conversas aborrecidas daqueloutro que já todos sabem o que vai dizer. As conversas irritantes em que sabemos que não estamos mesmo a ser escutados. As conversas...
E no meio desta conversada toda, como nos dizemos? Como nos empenhamos no que estamos a falar? Como colocamos não só a nossa opinião mas a nossa própria vida no que conversamos? Não é fácil ousar dizer-se em todas as conversas e com todos os interlucutores. A alternativa é o silêncio ou a conversa fiada, que é uma alternativa pouco interessante. Nas situações limite o silêncio será talvez o mais adequado, mas nas outras conversas o silêncio poder ser só uma desculpa para não se dizer. Para deixar a conversa a meio. Para desistir do nosso interlocutor. Para desistir de falar. Para desistir de amar. E deixamos que a palavra morra.
Os cristãos seguem o Deus da Palavra -- a Palavra que se fez carne. No meio da Babel que são as nossas conversas, salvar a palavra é acreditar que é o próprio Deus que se diz, que dizemos, quando conversamos. É acreditar que apesar de apenas balbuciarmos a linguagem de Deus uns com os outros, Ele nos escuta e mete-Se na conversa... Porque em qualquer conversa estamos sempre perante uma alteridade, perante outra pessoa que se diz à sua maneira. Salvar a palavra é conseguir aí escutar o eco da palavra de Deus. E ousar dizer-se: conversar, conversar, conversar...
(ecos do último encontro do Metanoia de Lisboa)



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