21.10.07
a doçura que se não prova
O que é bonito neste mundo e anima,
é ver que na vindima
de cada sonho
fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura que se não prova
se transfigura
numa doçura
muito mais pura
e muito mais nova

(Miguel Torga, "Confiança")

Às vezes ficamos aquém. Aquém daquele projecto que começámos, aquém daquela ideia genial que tivemos, aquém da conversa que não terminámos, aquém... Pode nem sequer ser uma questão de termos falhado, mas sentimos que apesar de tudo ter corrido bem, alguma coisa ficou por fazer. Temos uma mania irreprimível para ficarmos insatisfeitos. Olhamos para a nossa vida e sentimos um amargo na boca, uma doçura que ficou por provar apesar de quase lhe sentirmos o cheiro. Os descontentamentos da vida podem abalar-nos, fazer-nos descrer do mundo, tornar-nos cínicos. Também podem transfigurar-nos. É essa a possibilidade de renovação mais apetitosa -- transfigurar a doçura que não provámos, transformar a amargura num sonho mais doce e partir para outra aventura.
(a propósito dum texto do Tolentino)



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