10.9.07
a arte e o catolicismo dos intelectuais
A "Ípsilon" publicou no fim-de-semana um texto de Woody Allen a propósito da morte de Ingmar Bergman que vale a pena visitar:

«Já o disse muitas vezes a pessoas que têm uma visão romântica dos artistas e que vêem a criação como algo sagrado: no fim, a arte não nos salva. Por muito sublimes que sejam os trabalhos que produzimos (e Bergman deu-nos uma extraordinária colecção de obras-primas), eles não nos protegem da pancada fatal na porta que interrompeu o cavaleiro e os seus amigos no final de "O Sétimo Selo". E assim, naquele dia de Julho, Bergman, o grande poeta cinemático da mortalidade, não pôde adiar o seu inevitável xeque-mate e o melhor realizador da minha vida desapareceu.»

De seguida Woody Allen conta que costuma "fazer piadas acerca de a arte ser o catolicismo dos intelectuais" -- a obra feita como tentativa de imortalidade. Admito que é natural, mas faz-me impressão quando na morte de alguém as pessoas se põem a lembrar os feitos do desaparecido. Ou quando se diz que o artista morreu mas a obra subsiste. Se eu fosse artista estava-me a marimbar que a obra subsistisse. Ou como diz Allen de seguida "há uma coisa ainda melhor que viver no coração e na mente do público, que é viver no nosso apartamento". A arte não resolve o enigma último que é a morte. Na verdade também não creio que o catolicismo o resolva. Supera-o, mas o enigma subsiste.



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