7.2.07
casa
"Sem um instante para gastar com perguntas sem resposta, a minha mulher volta a entrar na casa de banho com a Íris ao colo e, quando abre a porta do armário dos medicamentos, não quer pensar em quem poderia estar a telefonar-lhe.
A Íris já é pesada. A minha mulher senta-se na ponta do bidé e pousa-a no chão. À sua frente, a Íris fica de pé, com a mão aberta e estendida para ela. São uma avó e uma neta. Sobre os joelhos, a minha mulher equilibra algodão, tintura de iodo, fita adesiva e um rolo de ligadura. Tem a voz delicada porque quer que a Íris não chore mais. Tenta sorrir e tenta distraí-la:
- Agora, vinhas ao hospital para te curares. Então diga lá, senhora, teve um acidente?
Com os lábios apertados e os olhos muito grandes, a Íris murmura gemidos magoados, quase fingidos, e estende-lhe mais a mão.
-Oh, vamos já curá-la. – E despeja tintura de iodo sobre uma bola de algodão que aproxima da ferida.
A Íris vai começar a chorar, mas a minha mulher consegue contê-la. Diz-lhe:
- Pronto, pronto. – E enrola-lhe a mão pequena numa tira de ligadura que prende com a fita adesiva.
Depois, encontra um instante para lhe passar os dedos pelo cabelo: ternura: e, devagar, aproxima-lhe os lábios da testa. Sorri-lhe:
- Já passou.
A Íris fica em bicos de pés, com o queixo erguido sobre o lavatório, enquanto a minha mulher lhe lava a cara ainda desordenada pelo choro. Sente-lhe o rosto. Sente-lhe o rosto através da toalha de pano turco e, só depois, pousando-lhe a mão sobre o ombro, pergunta como é que o móvel caiu."

José Luís Peixoto, in Cemitério de Pianos



Bonito demais para me apetecer comentar. Memórias, presentes e futuros.



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