10.2.07
De todas as cores
"Sentia a minha mulher acordada. Poderia ter-me lembrado que faltavam poucos dias para a data que o médico tinha dito, mas lembrava-me apenas das noites em que o calor não a tinha deixado adormecer. Era o início de Setembro. Ela dava voltas impacientes na cama. De cada vez que se virava, o mundo ficava suspenso nos seus gestos porque era tudo muito lento, porque era difícil e, às vezes, parecia que era impossível. O seu corpo era grande de mais. Os seus braços tentavam agarrar-se aos lençóis. Não encontrava posição. As juntas da cama rangiam. Eu estava acordado, adormecido, acordado, adormecido. Quando adormecia, continuava meio acordado. Quando acordava, continuava meio adormecido. Nos pensamentos vagos que tinha, acreditava que era o calor que não a deixava adormecer totalmente.
Estremunhado, abri os olhos quando senti as pernas quentes e molhadas, quando me abanou os ombros, gritando e sussurrando:
- Acorda! Rebentaram-me as águas."



José Luís Peixoto, in Cemitério de Pianos


Lembrei-me que ainda que no meio da minha resmunguice pelo quase nada que ali fazemos. Ainda que no meio das minhas fugidas para o bloco operatório (onde o cirurgião já dá umas boas gargalhadas ao reconhecer os meus olhos entre a máscara e a touca verdes). Ainda que no meio dos dias que passam demasiado lentos…
Os meus dias na maternidade têm este lado também.



Lembrei-me… de ti sorridente a contar como sentistes os pés molhados a meio de uma noite, e como não percebeste que era o teu irmão a dizer que ia nascer. Lembrei-me que sempre achei essa história bonita.
Soube que apesar de não estares aqui para te dar um abraço apertado pelos teus 25 anos (8/2/07), que é contigo que comemoro. Falo contigo todos os dias e todos os dias falo-te com a idade que temos hoje e não nos teus 20 anos, porque sei que aí onde estás cresces comigo.
Parabéns, querida Rita. Menina de todas as cores.



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