22.1.07
coisas esquisitas
«Começámos o ano a ver um homem ser enforcado. Até meados do século XX, e desde tempos imemoriais, era espectáculo relativamente banal ou tão banal como condenações à morte por enforcamento. Ainda hoje, num país tão ocidental como os Estados Unidos da América, há lugares cativos para ver uma desgraçada ou um desgraçado estrebuchar com choques eléctricos ou com injecções letais. Mas é verdade que se generalizou uma repulsa pela pena de morte que cada vez ganha mais países e que se generalizou, para o comum das gentes que a gente conhece, maior repulsa por quem reserva lugar para assistir a suplícios. Hipocrisia nossa, porque, em quatro dos cinco continentes a pena de morte continua a ser defendida por cidadãos que se consideram pacíficos e, em dois desses quatro continentes, espectáculos à roda de patíbulos continuam a ser triviais. Estas coisas do progresso também são muito esquisitas.
Mas o que eu nunca vira, e penso que nunca aconteceu, pelo menos nas televisões captáveis em Portugal, foi uma transmissão em directo, para todo o mundo e por quase todos os canais, de um homem com a corda ao pescoço. Se bem me lembro, algo de semelhante tinha-se passado com Ceausescu, mas tinha-se ficado no "tribunal" e na "sentença", sem a morte em directo. Mesmo que me engane, não tira nem põe. Todos esquisitamente demos por nós a ver o que era obsceno. Obsceno, no sentido literal, do que deve ficar fora de cena. Ora, todos nós estivemos dentro da cena e de pouco contam as reacções particulares de cada um. O que conta é que esquisitamente uma execução foi vista pelo maior número de pessoas que alguma vez assistiu a elas, desde que o homem anda pelo planeta.
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(J.B. Costa, 'Público' de ontem)



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