3.12.06
fronteira difícil e arriscada
Estávamos naquele bar, à espera da hora da visita. A propósito de qualquer coisa, vem à baila a questão de ser crente ou deixar de o ser. Lembrei-me dum personagem com que me deparei há uns dias no filme de John Ford e que me surgiu como profundamente profético: o pregador das "Vinhas da Ira", do Steinbeck. Um pregador tão bom no ofício, que fazia sermões pendurado nas traves do celeiro ou a fazer o pino. Um dia deixou de ter certezas e desistiu da profissão. Foi aí que se tornou verdadeiramente profético. E depois foi morto.

«Tom, you gotta learn like I'm learnin'. I don't know it right yet myself. That's why I can't ever be a preacher again. Preachers gotta know. I don't know. I gotta ask.»

«Diante de Notre Dame, em Paris, ou de qualquer outra Igreja, passa muita gente. Há os que passam e não reparam sequer, embora saibamos que, subliminarmente, o seu espírito 'fotografou' o que estava à volta mas logo relegou a fotografia para o inconsciente. Há outros que reparam, "tiram a fotografia" de modo consciente, mas tratam-na com indiferença, sem que lhes provoque uma qualquer reflexão. Há outros para quem a imagem da igreja por onde passam lhes lembra, pela associação de ideias constante no espírito do ser humano, a questão de saberem se acreditam ou não. Outros passam, notam a igreja e de algum modo sabem ter alguma relação com o sinal que a igreja é mas não são praticantes, dizem. E há os que se consideram praticantes, porque participam nos rituais e seguem a doutrina da Igreja. E depois finalmente há um pequeno número que sente que é bem difícil ser cristão.
A imagem não é mais do que isso. Gente que passa junto ao limiar da igreja, uns pensando-se fora, outros pensando-se dentro. Mas também aqui a fronteira não existe. É um limiar e, só porque por ele passam (pelo facto de existirem naquela cidade, naquele planeta Terra, no mundo), só por isso, o que é transcendente diz-lhes respeito. A diferença entre uns e outros não é redutível a “acreditar” ou “não acreditar”. Não são os que dizem “Senhor, Senhor” que entrarão no reino de Deus mas “sim os que fazem a vontade de Deus”, insiste o discípulo Mateus. Por um lado, os que tentam seguir Jesus Cristo fazem-no porque nele vêem o caminho para Deus. Por outro lado, os que amam os mais fracos de entre os mais fracos são os que estão perto de Deus. Não há fronteira visível na humanidade, separando a comunidade dos cristãos da comunidade de toda a humanidade.
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(Maria de Lurdes Pintasilgo, "Palavras Dadas")



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