23.12.06
DETESTO
I - Que raio de coisa é esta de ser um(a) bom(a) médico(a)?
QUE COISA É ESSA?



1) Detesto que as pessoas digam que é importante é que seja dócil e compreensivo. Que a parte humana é que importa. Chateia-me porque um aluno do 6º ano que concorde é, no mínimo, um irresponsável. O meu pediatra encontrou o meu pai na rua. Não sabia o que eu estudava mas mandou alguns recados quando o soube:

Aposta intensamente numa boa preparação científica e técnica. A boa relação humana com os doentes é facílima para quem é bem formado. Já vi grandes embustes de médicos que, na falta de uma boa preparação científica e técnica, enveredaram pelo culto de uma sedução vazia de eficácia, causadora de grandes erros clínicos.

2) Detesto a cusquice da vida dos doentes, que no fundo é apenas isso e não investigação dos pontos sensíveis de causar problemas. Detesto a simpatia balofa que é “sou muito sua amiga, veja lá”. Se as pessoas são adultas, se o seu problema é de saúde, e até se nos procuram só para conversar… não vejo razão para as tratarmos como amigas quando é a primeira vez que as vimos, ou mesmo quando é a quinquagésima mas de facto não o somos.
Uma coisa é simpatia, respeito, preocupação, atenção… outra coisa bem diferente é amizade ou conquista. Cai-se num “porreirismo” ou num “charme” da treta que me irrita mesmo. Distribui-se moralismos “Sabe, há alturas na vida em que…” (isto de um aluno de 24 anos para uma senhora de setenta e tal só pode ser engraçado) e retribuem-nos prendinhas (para que da próxima vez os tratemos bem, não vá ser por falta delas).

3) Detesto que digam que como estudamos TANTO-TANTO isso justifica que ganhemos MUITO-MUITO dinheiro. Detesto que digam que como a nossa responsabilidade é ENORME-ENORME, isso dá-nos o direito de ganhar MAIS-MAIS. Aliás, eu detesto a conversa do dinheiro.

4) Detesto o estatuto.


imagem: Jan Grarup, world press photo 2005



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