28.12.06
2007
Nestes últimos meses de 2006 parece que a toda a minha volta aconteceram coisas tristes, arrepiantes, assustadoras.
E no entanto, a toda a minha volta, nessas mesmas pessoas, só encontrei coragem e esperança. Esperança infinita que tudo melhore, que tudo encontre serenidade outra vez.
E por isso me sinto bem, por isso espero que 2007 e todo o resto da vida seja bem melhor para elas.

uma_imagem_gira
nobody knows


É bom arriscar o salto,
Planar,
Sentir de novo emoção...


Trapézio, Jorge Palma


Tentei cantar-te a música mas sou desafinada... pois, e essa é outra música de que gosto muito.

27.12.06
NINGUÉM SABE
















Japão, 2004, 141 '
Argumento e realização: Hirokazu Kore-eda

O filme mais bonito que vi nas últimas semanas.
Num ritmo quase sem palavras e sempre aquela luz. Uma luz branca, a única coisa que parecia cuidar das quatro crianças abandonadas numa casa. Um abandono de sempre.
O actor Yuya Yagira, que representa o mais velho dos quatro, ganhou (descobri no fim ao olhar a capa do filme) o prémio de melhor actor em Cannes 2004, o que não admira.












Triste e bonito.
A completar docemente um dia muito bom. Há pessoas que SABEM quem aqui vai.

23.12.06
DETESTO
I - Que raio de coisa é esta de ser um(a) bom(a) médico(a)?
QUE COISA É ESSA?



1) Detesto que as pessoas digam que é importante é que seja dócil e compreensivo. Que a parte humana é que importa. Chateia-me porque um aluno do 6º ano que concorde é, no mínimo, um irresponsável. O meu pediatra encontrou o meu pai na rua. Não sabia o que eu estudava mas mandou alguns recados quando o soube:

Aposta intensamente numa boa preparação científica e técnica. A boa relação humana com os doentes é facílima para quem é bem formado. Já vi grandes embustes de médicos que, na falta de uma boa preparação científica e técnica, enveredaram pelo culto de uma sedução vazia de eficácia, causadora de grandes erros clínicos.

2) Detesto a cusquice da vida dos doentes, que no fundo é apenas isso e não investigação dos pontos sensíveis de causar problemas. Detesto a simpatia balofa que é “sou muito sua amiga, veja lá”. Se as pessoas são adultas, se o seu problema é de saúde, e até se nos procuram só para conversar… não vejo razão para as tratarmos como amigas quando é a primeira vez que as vimos, ou mesmo quando é a quinquagésima mas de facto não o somos.
Uma coisa é simpatia, respeito, preocupação, atenção… outra coisa bem diferente é amizade ou conquista. Cai-se num “porreirismo” ou num “charme” da treta que me irrita mesmo. Distribui-se moralismos “Sabe, há alturas na vida em que…” (isto de um aluno de 24 anos para uma senhora de setenta e tal só pode ser engraçado) e retribuem-nos prendinhas (para que da próxima vez os tratemos bem, não vá ser por falta delas).

3) Detesto que digam que como estudamos TANTO-TANTO isso justifica que ganhemos MUITO-MUITO dinheiro. Detesto que digam que como a nossa responsabilidade é ENORME-ENORME, isso dá-nos o direito de ganhar MAIS-MAIS. Aliás, eu detesto a conversa do dinheiro.

4) Detesto o estatuto.


imagem: Jan Grarup, world press photo 2005

GOSTO
II - Que raio de coisa é esta de ser um(a) bom(a) médico(a)?
QUE COISA É ESSA?



1) Gosto mesmo da procura, do raciocínio e do despiste. Organizado ou por ideias repentinas “que podem mesmo fazer sentido… vamos ver!”

2) Gosto mesmo da exigência. Porque nunca é um trabalho “da treta”, porque podemos sempre questionar se o fazemos bem, se pomos o que sabemos em prática, se estudamos o suficiente, se trabalhamos para quem precisa ou para quem pode; se aceitamos subtis subornos, se fazemos boas equipas ou se somos justos/correctos/precisos… mas dificilmente nos escapa a relevância que o trabalho tem.

3) Gosto mesmo de conhecer essas vidas outras. Porque as pessoas pensam mesmo de formas diferentes e vemos tantas e tantas vidas, tantas e tantas histórias! Como um grande amigo meu diz… os livros e o cinema dão-nos possibilidade de viver muitas coisas que nunca viveríamos só na nossa vida. E nas consultas também é assim. Penso muitas vezes em escrever as expressões que as pessoas usam, algumas são espectaculares! Podem exprimir exactamente aquilo que queriam sem terem de nos dar termos científicos.

4) Gosto mesmo de encontrar um médico que seja culto. Que me segure na forma como sabe de literatura, de cinema, de teatro, de geografia, de histórias ou de coisas populares. Mas esses, normalmente, não são os Professores Doutores… porque esses pavoneiam-se do que sabem, falo dos outros que sabem integrar essas coisas no que ensinam, porque nos querem maiores!

5) Gosto do João Semana… apenas porque sabe exercer em qualquer lugar e não apenas junto das tecnologias. Eu quero saber exercer em qualquer lugar.


imagem: Steve McCurry

ASSUSTA-ME
III - Que raio de coisa é esta de ser um(a) bom(a) médico(a)?
QUE COISA É ESSA?


Assusta-me a responsabilidade.
Assusta-me o longo-longuíssimo caminho até se ser bom.











Lucian Perkins, world press photo 1995

22.12.06
Natal
Creio no Sol mesmo se ele não brilha
Creio na alegria mesmo se não a sinto
Creio em Deus mesmo se não O vejo


Alegria e luz. Tudo o que (vos) desejo neste Natal.

luz de Natal

18.12.06
Imagina
Composição: Antonio Carlos Jobim / Chico Buarque


Imagina, imagina
Hoje à noite a gente se perder
Imagina, imagina
Hoje à noite a lua se apagar
Quem já viu a lua cris
Quando a lua começou a murchar
Lua cris
É preciso gritar e correr, socorrer o luar
Meu amor
Abre a porta prá noite passar
E olha o sol da manhã
Olha a chuva, olha a chuva
Olha o sol
Olha o dia a lançar serpentinas
Serpentinas pelo céu, sete fitas coloridas
Sete vias
Sete vidas, avenidas, prá qualquer lugar
Imagina, imagina, imagina, imagina
Sabe que o menino que passar debaixo do arco-íris vira moça, vira
A menina que cruzar de volta o arco-íris rapidinho volta a ser rapaz
A menina que passou no arco
Era o menino que passou no arco
E vai virar menina
Imagina, imagina, imagina, imagina, imagina
Hoje à noite a gente se perder
Imagina, imagina
Hoje à noite, a lua se apagar


Soube-me muito bem infringir, um pouco de cada vez, a regra.
Apenas porque o frio pedia para ir para a rua andar. O vento impelia para o mar. Os fins de dia e a luz bonita lá ao fundo me faziam ir olhar a ria.
Porque ouvi muitas vezes esta música e a cantei muito mais. Em silêncio.
Acabada de descobrir... muito certa neste fim-de-semana.

no cd - Casa: Morelenbaum2 / Sakamoto

7.12.06
Inesperada
Inesperada.
Sempre. Sempre. Sempre.
Em mim acontece, de cada vez que vejo esta palavra e me lembro de como tem o meu nome.
De como gosto do que ela significa.
Hoje li assim “novidade inesperada”. E gostei novamente.
Lembrei…
A tua lágrima ao ouvir o teu texto.
O teu aperto de mão ao amigo a quem terá mais custado entrar naquela sala (e no entanto entrou).
O teu abrir de olhos a quem não preciso de falar para sabermos o que sentimos agora (e que conforto não termos de explicar).

um pouco diferente:
novidade… ines… espera.

O meu corpo de menino
‘tava todo atarantado,
quando via tudo queria
e não sabia escolher.
Com tanta riqueza à roda
tinha v’rgonha de dizer
que não sabia escolher
senão a riqueza toda.




in O menino d’olhos de gigante
José de Almada Negreiros.

(volto a oferecer-te porque voltaste a viajar)

5.12.06
as mulheres de Tiziano
uma beleza que nos salve.


Portrait of a Young Woman
1530s
Oil on canvas, 96 x 75 cm
The Hermitage, St. Petersburg


The Venus of Urbino
1538
Oil on canvas, 119 x 165 cm
Galleria degli Uffizi, Florence


Flora
c. 1515
Oil on canvas, 79,6 x 3,5 cm
Galleria degli Uffizi, Florence




Empress Isabel of Portugal
1548
Oil on canvas, 117 x 98 cm
Museo del Prado, Madrid


Profane Love (Vanity)
1514-15
Oil on canvas
Alte Pinakothek, Munich


Violante (La Bella Gatta)
-
Oil on wood, 65,5 x 51 cm
Kunsthistorisches Museum, Vienna


Cortesia da Web Galley of Art. Clicar nas imagens para ampliar.

3.12.06
fronteira difícil e arriscada
Estávamos naquele bar, à espera da hora da visita. A propósito de qualquer coisa, vem à baila a questão de ser crente ou deixar de o ser. Lembrei-me dum personagem com que me deparei há uns dias no filme de John Ford e que me surgiu como profundamente profético: o pregador das "Vinhas da Ira", do Steinbeck. Um pregador tão bom no ofício, que fazia sermões pendurado nas traves do celeiro ou a fazer o pino. Um dia deixou de ter certezas e desistiu da profissão. Foi aí que se tornou verdadeiramente profético. E depois foi morto.

«Tom, you gotta learn like I'm learnin'. I don't know it right yet myself. That's why I can't ever be a preacher again. Preachers gotta know. I don't know. I gotta ask.»

«Diante de Notre Dame, em Paris, ou de qualquer outra Igreja, passa muita gente. Há os que passam e não reparam sequer, embora saibamos que, subliminarmente, o seu espírito 'fotografou' o que estava à volta mas logo relegou a fotografia para o inconsciente. Há outros que reparam, "tiram a fotografia" de modo consciente, mas tratam-na com indiferença, sem que lhes provoque uma qualquer reflexão. Há outros para quem a imagem da igreja por onde passam lhes lembra, pela associação de ideias constante no espírito do ser humano, a questão de saberem se acreditam ou não. Outros passam, notam a igreja e de algum modo sabem ter alguma relação com o sinal que a igreja é mas não são praticantes, dizem. E há os que se consideram praticantes, porque participam nos rituais e seguem a doutrina da Igreja. E depois finalmente há um pequeno número que sente que é bem difícil ser cristão.
A imagem não é mais do que isso. Gente que passa junto ao limiar da igreja, uns pensando-se fora, outros pensando-se dentro. Mas também aqui a fronteira não existe. É um limiar e, só porque por ele passam (pelo facto de existirem naquela cidade, naquele planeta Terra, no mundo), só por isso, o que é transcendente diz-lhes respeito. A diferença entre uns e outros não é redutível a “acreditar” ou “não acreditar”. Não são os que dizem “Senhor, Senhor” que entrarão no reino de Deus mas “sim os que fazem a vontade de Deus”, insiste o discípulo Mateus. Por um lado, os que tentam seguir Jesus Cristo fazem-no porque nele vêem o caminho para Deus. Por outro lado, os que amam os mais fracos de entre os mais fracos são os que estão perto de Deus. Não há fronteira visível na humanidade, separando a comunidade dos cristãos da comunidade de toda a humanidade.
»
(Maria de Lurdes Pintasilgo, "Palavras Dadas")



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