18.11.06
"nós temos que nos salvar todos juntos"
Um escrita teológica de João Bénard da Costa, há já alguns dias:

«Muitos, muitos anos depois, deram-me uma interpretação tão heterodoxa como a precedente, mas que mudou por completo a minha visão do primeiro dia de Novembro. Aquele não era o dia dos "outros santos".
Aquele é o Dia de Todos os Santos, sendo que Todos os Santos somos todos nós, na acepção que o Concílio de Niceia (325) deu ao dogma da Comunicação dos Santos. O Concílio não falava de santos, no pio sentido da palavra, ou seja no de alguém que por obras valorosas se foi da lei da morte libertando e está agora sentado à direita do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O Concílio designava assim a Comunicação entre os crentes, entre os membros do Corpo Místico da Igreja. No dia 1 de Novembro, celebra-se o poder dessa Comunicação. E, como não há nenhum meio que nos permita distinguir quem crê de quem não crê, como a Igreja abarca e engloba homens e mulheres, escravos e livres, gregos e judeus, santos somos todos, sabendo-o ou não, e essa certeza é a única que nos pode dar Esperança na Salvação Final. Porque os laços
estabelecidos nas cadeias das gerações, entre vivos e mortos, como aqueles que se estabelecerão entre os que hão-de viver e os que hão-de morrer, são o que nos podem dar a certeza de uma comunhão total. (...)
Por isso, Péguy dizia que "nós temos que nos salvar todos juntos. Temos que chegar todos juntos junto de Deus. Temos que nos apresentar todos juntos. Não podemos ir para o pé de Deus uns sem os outros" (in Le Mystère de la Charité de Jeanne d"Arc).
(...) Por isso, "se alguém acredita, acredita com a multidão dos crentes; se alguém ama, ama com todos os outros crentes; se alguém reza, reza com todos os outros crentes" como o disse um ortodoxo russo (Khomiakov) no belo hino da Igreja Una. Ninguém se salva sozinho. Ninguém se perde sozinho. Eis o que quer dizer a Comunicação dos Santos, eis a certeza que alguém guia a minha mão quando isto escrevo como alguém guia o vosso olhar quando isto lê. Diferentíssimas podem ser as nossas
imagens. Unicíssima é a nossa visão suprema delas.
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