2.11.06
Esperar
Pode ser que eu nunca venha a ser médica.
Pode ser que estes seis anos nunca se vejam concretizados em nada evidente.
Mas há coisas que levo e espero não esquecer.
Espero não esquecer…

Na nossa rotina rotineira a médica disse, ao mesmo tempo que espreitava atenta pelo microscópio, “isto é um quisto!”. Olhei para a doente deitada e ela procurou o meu olhar esperando que eu confirmasse. A minha expressão disse-lhe que sim e ela chorou. Lembrou-me, subitamente, do que ali estávamos a fazer e que claro que ela chorava, o seu alívio era claro e natural… não tinha cancro da mama.

Ele entrou no consultório muito magro e triste. Sabíamos que se recusara a fazer quimioterapia, escondendo os soros debaixo da cama. Sabíamos que tinha sido operado umas três vezes. Tinha cancro e ali só se tentava tirar-lhe a dor (consulta da dor). Ali encontrou um médico sem palavras vãs, sem qualquer paternalismo disse-lhe porque estavam ali os dois encontrados e, no seu cuidado, conseguiu-lhe um sorriso. Tem menos 23 dias do que eu, está doente há dois anos e sabe o que virá.

A manhã tinha apenas começado. A velhinha tinha chegado durante a noite à sala de emergências. O médico, que é espectacular, já nos tinha explicado que apenas se esperava o seu fim, ninguém a iria ressuscitar se o coração parasse. Estávamos por lá a ver exames quando o pip-pip-pip se tornou num prolongado piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Ninguém se mexeu. Parei a olhar. O coração dela parava e o meu disparava. Tranquilamente se aceitou. Eu soube ali que me custará sempre!

O 6º ano ainda agora começa...

(fotografia: sebastião salgado)
(gosto das duas formas de dizer esperar... esperar de ter esperança e esperar de ficar só quieta... gosto, ainda que não saiba muito bem fazer nenhuma delas.)



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