28.11.06
white butterfly
hoje palpei pela primeira vez, muito bem definida, a pequena cabeça de um bebé ainda na barriga da mãe.
quando a descobri, sozinha, sorri. e encontrei o sorriso da mãe.

fiquei um pouco ali… a pensar que as coisas boas fazem-se esperar.
depois abrem os olhos e têm a vida inteira
(como todos nós quando o fazemos, pela manhã).
e por isso eu espero. esperamos. por isso queremos do verbo “querer”, no nosso sorriso que é coisa que consegues sempre.

(um beijo àqueles que sabem exactamente o porquê desta imagem. coisas boas.)

24.11.06
aconchegado
anjo da guarda
minha companhia
guarda a minha alma
de noite e de dia



uma coisa que me lembro de menina.
disseste um dia que te lembrava também de quando eras mais menino, que quem ta ensinou te queria muito bem e com esta frase te fazia sentir muito protegido.
sempre acreditei que o eras. e acredito!

21.11.06
NOS BAILES DA VIDA
ROUPA NOVA
Composição: Milton Nascimento - Fernando Brant

Só quem toma um sonho
Como sua forma de viver
Pode desvendar o segredo
de ser feliz


Foi nos bailes da vida ou num bar em troca de pão
Que muita gente boa pôs o pé na profissão
De tocar um instrumento e de cantar
Não importando se quem pagou quis ouvir
Foi assim
Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol
Tenho comigo as lembranças do que eu era
Para cantar nada era longe, tudo tão bom
Té a estrada de terra na boléia de um caminhão
Era assim
Com a roupa encharcada e alma repleta de chão
Todo artista tem de ir aonde o povo está
Se foi assim, assim será
Cantando me disfaço e não me canso de viver
Nem de cantar



enquanto dormes imagino-te muito bem a cantar esta música (e tantas outras, que tu cantas muito).
canto contigo. e somos muitos.

18.11.06
"nós temos que nos salvar todos juntos"
Um escrita teológica de João Bénard da Costa, há já alguns dias:

«Muitos, muitos anos depois, deram-me uma interpretação tão heterodoxa como a precedente, mas que mudou por completo a minha visão do primeiro dia de Novembro. Aquele não era o dia dos "outros santos".
Aquele é o Dia de Todos os Santos, sendo que Todos os Santos somos todos nós, na acepção que o Concílio de Niceia (325) deu ao dogma da Comunicação dos Santos. O Concílio não falava de santos, no pio sentido da palavra, ou seja no de alguém que por obras valorosas se foi da lei da morte libertando e está agora sentado à direita do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O Concílio designava assim a Comunicação entre os crentes, entre os membros do Corpo Místico da Igreja. No dia 1 de Novembro, celebra-se o poder dessa Comunicação. E, como não há nenhum meio que nos permita distinguir quem crê de quem não crê, como a Igreja abarca e engloba homens e mulheres, escravos e livres, gregos e judeus, santos somos todos, sabendo-o ou não, e essa certeza é a única que nos pode dar Esperança na Salvação Final. Porque os laços
estabelecidos nas cadeias das gerações, entre vivos e mortos, como aqueles que se estabelecerão entre os que hão-de viver e os que hão-de morrer, são o que nos podem dar a certeza de uma comunhão total. (...)
Por isso, Péguy dizia que "nós temos que nos salvar todos juntos. Temos que chegar todos juntos junto de Deus. Temos que nos apresentar todos juntos. Não podemos ir para o pé de Deus uns sem os outros" (in Le Mystère de la Charité de Jeanne d"Arc).
(...) Por isso, "se alguém acredita, acredita com a multidão dos crentes; se alguém ama, ama com todos os outros crentes; se alguém reza, reza com todos os outros crentes" como o disse um ortodoxo russo (Khomiakov) no belo hino da Igreja Una. Ninguém se salva sozinho. Ninguém se perde sozinho. Eis o que quer dizer a Comunicação dos Santos, eis a certeza que alguém guia a minha mão quando isto escrevo como alguém guia o vosso olhar quando isto lê. Diferentíssimas podem ser as nossas
imagens. Unicíssima é a nossa visão suprema delas.
»

16.11.06



















David Burnett.
Sa Keo refugee camp, Thailand, November 1979.
A Cambodian woman cradles her child while waiting for food to be distributed.
World Press Photo 1979

Há palavras...
"Ha palavras que fazem bater mais depressa o coração
- todas as palavras - umas mais do que as outras,
qualquer mais do que todas.
Conforme os logares e as posições das palavras.
Segundo o lado d'onde se ouvem -
do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol."


almada negreiros


Piquer un fard
Pantouflards
Frondeur


Uma expressão e duas palavras que levo do dia de hoje.
Pedindo desculpa para quem conhece bem estas palavras:

A primeira quer dizer uma coisa que sempre achei graça, cheguei a ter uma certa inveja, mas a verdade é que embaraçoso para a pessoa a quem acontece… mas ficam, normalmente, bem bonitos(as): corar

Pantouflards é uma coisa que só me dá muito raramente, mas quando me apetece e é possível sabe pela vida! Ser caseiro.

Frondeur… bem, esta é-me especialmente querida mas, infelizmente, nem toda a gente o sabe fazer de forma divertida ou inteligente. Mas, se encontro alguém assim apetece leva-lo(a) comigo: impertinente, refilão.



fotografia: Martine Franck, Tulkukhentrol With Tutor, Nepal. 1996

14.11.06
O sorriso
Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a
porta.
Era um sorriso com
muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa,
ficar
nu dentro daquele
sorriso.
Correr, navegar, morrer
naquele sorriso.

Eugénio de Andrade


Porque me lembro muitas vezes deste poema.
Porque gosto mesmo muito do que diz.

12.11.06
A chave do lado de lá da porta
Dei por mim a dizer num bar, com música alto, assim: “Detesto que digam: eles são pobres mas são felizes!”
Falava de S. Tomé.
Uma verdadeira treta pensar que as pessoas não sabem que são pobres, que vivem mal, que sentem a chuva destruir as suas casas, que têm fome, que os seus filhos andam rotos e que não se vê futuro… Falta de esperança.
Pode ser uma ilha mas não é feita de idiotas! E todos vêem onde anda o dinheiro e como ele se passeia em espectaculares carros e férias.















(e quando digo… "nesta terra não havia água, nem luz, tomávamos banho no mar ou no rio junto aos porquinhos e transportávamos água o dia todo…" expressões como “ah… isso é giro!” são de bradar aos céus! É de quem romanticamente acha “giro” mas nunca lá vai pôr o pé… e, no entanto, rimo-nos e muito! Entre o ranger dos dentes, com as dores nas mãos dos baldes que pesavam num caminho bem longe, alguém caía no meio da lama ou mulheres junto à água gritavam entre risinhos “Branca, não leva o balde na cabeça?”)

Percebes?
Há uns anos me disseram que alguém que, enquanto explica qualquer coisa, pergunta constantemente no final de cada frase (mais por muleta do que por interesse, acrescento eu) “Percebes?” devia corrigir-se. Porque isso era tirar algum valor à outra pessoa e, portanto, seria melhor dizer “Faço-me entender?”.
Eu achei aquilo um pouco a soar a psicologia barata.

Nos últimos tempos confesso-me bastante irritável com afirmações constantes de “Vocês não têm ideia…”, “Vocês não têm noção…”.
Sei, porque conheço bem, que não é por mal absolutamente nenhum… mas não gosto mesmo nada.

10.11.06
the miniature earth
uma_imagem_gira
site: the miniature earth

(procurar o video no idioma que preferirem)

revelação
revelar-se | se revelar | re velar-se | re-ver-se-la | reverse | rever-se

9.11.06
atenta II














Vila Malanza 2006

Lembrando estas imagens paro um pouco.
Volto a pensar como me irrita que se fale de dinheiro, ordenados, casas, carros e melhores casas e melhores carros. Sempre no mesmo ram-ram de lamentação ou revolta. No autocarro, em família ou entre colegas contenho a minha fúria contra quem só se queixa do que queria ter, está a par de vencimentos das várias actividades profissionais e de ser sempre ele(a) o(a) injustiçado(a)!

É que nada desta actualização contínua tem minimamente a ver com justiça social... é outro social qualquer.

muita parra











Marc Chagall

Ontem estava um padre bem novo e bem inteligente à conversa com o Malato no concurso um contra todos. Não sei porquê falaram de casamento...
Ele pediu para acrescentar só uma coisa, meio envergonhado-meio a sorrir: "vou-lhe confessar uma coisa... não gosto muito de celebrar casamentos. É que muitas vezes é uma coisa muito plástica e muito pouco séria."

Eu e o meu pai, ao mesmo tempo, fizemos o mesmo gesto que significava "é isso mesmo!"
É muita a forma para pouco envolvimento.

7.11.06
atenta














Perante olhares assim reafirmo…
Acredito que as pessoas são genuinamente boas.
E detesto todas as conversas que fazem de tudo uma grande escumalha, um grande cinzento, uma massa apodrecida.
É gigantesca mentira!

4.11.06
A partir de amanhã

silêncio e ausência, outras formas talvez de presença
Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem

(Ruy BELO, Obra Poética I, Lisboa, 1984)

2.11.06
Esperar
Pode ser que eu nunca venha a ser médica.
Pode ser que estes seis anos nunca se vejam concretizados em nada evidente.
Mas há coisas que levo e espero não esquecer.
Espero não esquecer…

Na nossa rotina rotineira a médica disse, ao mesmo tempo que espreitava atenta pelo microscópio, “isto é um quisto!”. Olhei para a doente deitada e ela procurou o meu olhar esperando que eu confirmasse. A minha expressão disse-lhe que sim e ela chorou. Lembrou-me, subitamente, do que ali estávamos a fazer e que claro que ela chorava, o seu alívio era claro e natural… não tinha cancro da mama.

Ele entrou no consultório muito magro e triste. Sabíamos que se recusara a fazer quimioterapia, escondendo os soros debaixo da cama. Sabíamos que tinha sido operado umas três vezes. Tinha cancro e ali só se tentava tirar-lhe a dor (consulta da dor). Ali encontrou um médico sem palavras vãs, sem qualquer paternalismo disse-lhe porque estavam ali os dois encontrados e, no seu cuidado, conseguiu-lhe um sorriso. Tem menos 23 dias do que eu, está doente há dois anos e sabe o que virá.

A manhã tinha apenas começado. A velhinha tinha chegado durante a noite à sala de emergências. O médico, que é espectacular, já nos tinha explicado que apenas se esperava o seu fim, ninguém a iria ressuscitar se o coração parasse. Estávamos por lá a ver exames quando o pip-pip-pip se tornou num prolongado piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Ninguém se mexeu. Parei a olhar. O coração dela parava e o meu disparava. Tranquilamente se aceitou. Eu soube ali que me custará sempre!

O 6º ano ainda agora começa...

(fotografia: sebastião salgado)
(gosto das duas formas de dizer esperar... esperar de ter esperança e esperar de ficar só quieta... gosto, ainda que não saiba muito bem fazer nenhuma delas.)



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