23.10.06
Maré cheia



"Aquele barco que está lá abandonado junto ao mar tem histórias para contar que ninguém ouve. Histórias que precisam de tempo e atenção. As gentes dispersas estão com falta de tempo, deixaram escoar-se nessa falta.

Não há nada mais cruel que esquecer alguém junto às suas memórias sem poder vivê-las. Viraram-no de ventre para cima, impotente para se virar, deixando-o nu; serve de exemplo a quem tenha tentações de desafiá-lo para uma passeata, um exemplo que diz "isso já foi e já não é". Convenceram-no que estava velho e que ali naquele canto escuro era o local ideal de quem já não serve. Entristeceram-no ao ponto de ter aprendido a chorar.

Fica ali todo o dia, madeira seca e tinta que se solta; a murmurar para si mesmo canções com o ritmo do mar, agitadas ou calmas conforme o estado de alma. Alegra-se quando chove, exaspera-se quando o verão vem e todos caminham em direcção ao mar sem se lembrarem dele. Sente que não é ali que pertence.

Esse barco já sem remos nem destino hoje quis ser fogueira, quis aquecer quem tenha frio. Esse barco foi fogueira e suas histórias ouviu nas bocas de um velho avô marinheiro que contava com todo o tempo do mundo uma história à neta já sem frio.

Compreendeu então enquanto ouvia, ao recordar seu olhar vazio de quando olhava para o mar, que é na entrega que o olhar se enche. Maré-cheia pode vir nesta vida de mudança. Nesse sentido que encontrou para a sua morte renasceu; na morte e na dor foi feliz como era quando era novo e navegava solto lá na baía."



Este conto pequenino foi escrito depois da fotografia tirada. Quando a tirei pensei que faltava qualquer coisa que lhe fizesse companhia, que a história devia ser contada. Foram oferecidos a uma menina "maré cheia".



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