30.10.06
Manifesto Sótão
"Degrau, degrau, degrau. Subindo até ao cimo de tudo se chega ao sótão. Oiçam os passos. Chega-se querendo! Numa decisão absoluta, sem “talvez”, nem porquês. Em rimas trauteadas por acaso. Viemos para estar, com corpo, e sentir a palma da nossa mão tocar rugosidades, viemos para estar por inteiro. Viemos para deixar de estar também, para esvaziar a cabeça tanto tanto, até se encher outra vez. O sótão molhou os pés no mar para sentir o frio. O sótão queimou-se.

Não é por acaso que estamos aqui. É um sótão sem porta que quer soprar correntes de ar e deixar entrar aguaceiros, que despenteia quem lá entra, onde podemos desarrumar desarredando. O sótão tem uma janela por abrir e paredes por pintar. Tem almofadas coloridas espalhadas, três candeeiros Pollock, pés descalços e posições tão confortáveis quanto cruzar as pernas. É um sótão onde se pode gritar e fazer barulho, em que é possível estarmos calados. Em que o tudo e o nada são tão importantes como insignificantes, pela opinião de quem olha e vê. O sótão quer que a vida se sinta.

Este sótão de que vos falo está vazio e quer encher-se. Quer ter gente com tudo o que a gente é, deixemos quem não é gente de lado. Nele entra-se e sai-se com a liberdade de lá se estar consigo e com os outros. No sótão há obrigações, as regras devem ser cumpridas até deixarem de fazer sentido. Há a obrigação de sair de si, a obrigação de entrar em ré, de analisar o outro, de falar sem pudor, de fazer caretas e de nos olharmos ao espelho. O sótão é incómodo, pasmem-se se não vos alicio. Lá chegados pode não ser fácil lá permanecer, o sótão tem memórias guardadas, segredos, ideias por pensar, coisas que esquecemos porque não nos convinham. O sótão é exigente. O sótão não quer ser fácil embora queira facilitar dificultando.

Mais um sítio em que há outros como nós. Mais um. Com aquele tão diferente eu vou. Vamos. E arrancar máscaras sufocantes, empunhar máscaras pretas, brancas, disformes e impróprias, vamos fazê-lo tantas vezes, mecânicos, que elas vão acabar por escorrer por si próprias. Vamos ser impróprios, sim, e moralistas. Vamos duvidar, ter fé na dúvida. Desacreditar que sou alguma coisa, compreender racionalmente que posso ser muitos. É ciência.

O sótão quer que te exponhas.
O sótão quer ser o mais diferente possível da palavra “radical”.
O sótão manifesta-se.

O sótão não quer ser pacífico, nenhuma poesia ou peça de teatro foi feita sem alguma garra, algum conflito. Todas as utopias dão trabalho.
O sótão tem beleza, aquela beleza que comove. Dá que pensar, dá que cantar e rir. O sótão abraça e pode ser afectivo. O sótão olha nos olhos, é sedutor e tem prazer. Que prazer? O sótão acredita que não temos que ter todos os dentes direitos e cabelos arranjados. O sótão acredita na vaidade. O sótão acredita no charme mas não quer dever nada à classe.

O sótão acredita na diferença entre géneros e homens. Acredita no plural e no singular. Acredita numa raça de humanos que não se vê na rua, só na intimidade. O sótão gosta de mestiços. Acredita que quem nasce está cercado de desejos e promessas, nasce leve e em futuros, nasce no seio das pessoas e já com história. O sótão tem gestos que não podem ser mudos. Gestos fortes em gente sensível.

O sótão ainda não é mas quer ser, e quer ser sempre mais e melhor. A subir a subir. Oiçam os passos. Degrau, degrau, degrau."




O "Sótão: Oficinas de Desenvolvimento Humano" é um novo projecto da Associação CCS Portugal (de que faço parte) para trabalhar o Desenvolvimento Humano e Pessoal através da Expressão pela Arte e pelo Jogo. Desta vez é dirigido a adultos. Também aqui ele se manifesta.



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