14.10.06
"A Cigarra e a Formiga"
(Santa: um homem há 3 anos no desemprego. Pelas palavras do actor que o interpreta: "Ele foi empregado num estaleiro naval tanto tempo que esse trabalho se tornou uma identidade. E como inúmeros trabalhadores ele sente o desemprego como uma negação dessa identidade.")

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"A Cigarra e a Formiga."
- Vamos a ver.
“Era uma vez um sítio em que viviam uma cigarra e uma formiga.”
(Santa, olhou para a criança procurando a sua aprovação. O pequeno acenou que sim.)
“A formiga era muito trabalhadora e a cigarra, não: gostava de cantar e de dormir enquanto a formiga trabalhava. Passou-se algum tempo. A formiga trabalhou o Verão inteiro, amealhou o mais que pôde e quando chegou o Inverno, a cigarra morria de fome e frio, ao passo que à formiga nada faltava”
- Filha da puta da formiga!
“A cigarra bateu à porta da formiga que lhe disse: - Cigarrita, cigarrita, se tivesses trabalhado como eu, não terias fome nem frio - e não lhe abriu a porta.
(Fechou o livro)
- Quem escreveu isto?! (abriu o livro e folheou-o) Não é nada assim. A formiga é uma fila da puta especuladora e além disso o que aqui não diz, é que alguns nascem cigarras e outras formigas. E quem nasce cigarra, está fodido. Disso não falam eles… Disso não falam eles.


Javier Bardem é o actor. E já tinha ouvido a palavra "maravilhoso" a propósito dele. Já o tinha visto muda e calada em "Mar adentro".
Sempre tive antipatia por esta história da cigarra e da formiga. Não sei bem porquê. Mas parecia que tinha de escolher a vida cinzenta e estúpida da formiga em vez da alegria irresponsável da cigarra. Num género de "podes querer cantar e andar contente mas amargarás com a fome!" Janvier Bardem diz que ao ler este diálogo soube que aceitaria fazer o filme.
Mais tarde... o seu advogado elogia-o por finalmente ter pago à empresa que o despediu (porque estaleiros da Coreia lhe construiriam os barcos a menor preço) o candeeiro que partiu na altura em que os trabalhadores, juntos, lutavam contra o despedimento de 80 dos seus 200 colegas. Disse-lhe que tinha feito muito bem em pagar o prejuízo, que se tinha tornado mais maduro e mais responsável. Que a empresa é que tinha procedido mal ao despedi-lo e ainda lhe cobrar 8000 pesetas pelo candeeiro. Santa sempre silencioso pediu-lhe que parasse o carro antes de chegar ao destino. Saiu do carro. Arremessou uma pedra ao dito candeeiro agora arranjando. Voltou para o carro dizendo "Sinto-me muito melhor."
(a única vantagem de ver filmes destes em casa é poder dar um salto no sofá e dizer "BOA!")



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