6.10.06
Avanços e recuos
A verdade é que naquela grande sala branca só se ouvem “pips”, “tics” e “tininis”.
A verdade é que a unidade de cuidados intensivos é um local de sofrimento. E todos o que ali calçam as botas “esterilizadas”, nesse pequeno gesto, logo percebem que ali tudo é delicado. No fio da vida.
Ele tinha de nos explicar a diferença entre vida vegetativa e morte cerebral. Um coisa bem feia para começar a manhã. Gosta de nos ter ali. Olha para nós e parece ver, com alegria, gente que quer bem. Adivinha em alguns dos nossos olhares a vontade de saber mais… E ensina, não grita, como outros, às nossas ignorâncias. Sorri e responde com quase-carinho.

Mas desde o início que ele estava com vontade de nos falar de outras coisas e assim foi. Sem conseguir resistir falou-nos de uma cidade-Coimbra onde se falava muito de política (os tais anos 66-69 de que já aqui falei). Uma cidade que tinha irreverente teatro universitário, uma óptima cinemateca, uma secção de fotografia muito activa, concertos e espectáculos de renome internacional, um conjunto de cafés e de outros espaços onde se discutia noite fora com muita garra.
Fiquei um pouco triste pela Coimbra de agora. Também lhe disse que cá chegou numa altura privilegiada! Mas ele não nos queria dizer que agora era uma porcaria… nada disso. Ele bem sabe que há muitas coisas que estão melhor. Ele queria que nós nos entusiasmássemos por todas estas coisas. E enquanto ele nos falava os “pips”, “tics” e “tininis” pareciam estar longe, esqueci-os. E com alguma preocupação, mais uma vez, senti que me sentia bem melhor nesta outra conversa. Com algum alívio lembrei que uma não tem de substituir a outra. A prova disso falava entusiasmado à minha frente.


(estranhamente, vim a descobrir que este homem, que senti quase conhecer, viajou muito de carro com o meu pai quando eram os dois estudantes universitários e iam para a tropa em Mafra)



HaloScan.com