23.9.06
"Sonho Português"


«1. Bonito
(...)
2. Muito bonito. Um dia
(...)
3. Você é muito bonito. Um dia
(...)
4. Você é muito bonito. Um dia vou casar com você
(...)
5. Branco, você é muito bonito. Um dia vou casar com você
(...)
E depois, um pouco na brincadeira, sem grande convicção, pediu-me uma moeda, senhor doutor juiz. E eu pensei: nesta terra não há muito turismo. (...) Não é bom habituar as crianças a pedirem (obterem) esmola. (...) E eu lá disse: não te dou, desculpa. Não, não te dou. E ela ficou algo descoroçoada, eu vi que ficou. Mas também não pedira com grande convicção, apenas porque algo dentro dela achara que fazia parte, fazia parte do filme; o filme da rapariguinha local e do matacão turista. E foi então, quando me afastei, que ela num riso chamou;
Branco!
Virei-me, senhor doutor juiz, juro que a única coisa que fiz foi (e estava a uns doze passos da criança) virar-me. E ela, para mal dos meus pecados, completou a frase, não sei se em jeito de desafio, se em ameaça, se em brincadeira, se em prometedoira promessa, a frase que anda hoje me assombra, a frase que ainda hoje me maltrata, a frase que até ao fim dos meus dias me doerá:
Branco, você é muito bonito. Um dia vou casar com você!
»

(de "A lenda de S. Tomé", por Rui Zink, na "Egoísta" deste mês)



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