7.9.06
O lado errado da vida
uma_imagem_gira
Imagem de prostituta da Tanzânia no documentário "O pesadelo de Darwin"

Imagine-se uma mulher africana de nome Helena, menina feita mulher. Corpo tornado forte pela dureza mais que pelo alimento. Irmã mais velha de seis irmãos, mais que irmã foi mãe deles. Nos sonhos de menina ouve falar da Europa rica para onde muitas tentam fugir e muitos conseguem. Sai do seu país fugindo a uma repressão política de um estado em guerra. Foge por onde consegue não por onde escolheu. Colocou a sua vida, com mais um grupo de dez mulheres, nas mãos de um homem que se diz recrutador profissional e lhe diz arranjar um emprego na Europa. Um emprego como nunca poderia ter tido no seu país, um emprego que pinta acreditando que desta é para melhor. E que nele pode melhorar a vida dos seus enviando dinheiro. “Ele falou-lhe de um presente bom e de um futuro emocionante e escondeu-lhe tudo o que pudesse parecer decepcionante. Mais tarde, no quarto de pensão, chamou-lhe sua mulher, seria ele a orientar o negócio de aluguer.”

Sai do seu país num suspiro, por si e pelos seus irmãos e família alargada que deixa com saudades. Imagine-se que esta mulher foge porque não tem condições, está desempregada, não tem perspectivas de futuro, não estudou como a grande maioria das mulheres e homens da sua aldeia. E que apesar de todo o inferno que deixou rapidamente está a suspirar pelo regresso. Chega a um país onde não sabe a língua, onde não conhece as regras, onde as pessoas funcionam de maneira diferente, onde já não sabe quem é nem como deve ser. Onde não tem identidade, nem documentos e é “um resto solitário esquecido na multidão” O emprego é tráfico. A oportunidade é armadilha. O homem, nas suas conversas mansas, vai tropeçando nas suas mentiras: uma, duas, tantas até desaparecer sem rasto deixando-a entregue a uma mulher em quem já não sabe confiar.

Helena é “um coração danificado e uma cabeça em polvorosa. (…) O pequeno poço dos desejos todo envenenado.” As canções alegres que aprendera desde pequenina sussurra-as triste apenas para si. As outras dez mulheres com quem tinha ido não voltou a ver; as que conheceu naquela “casa” não compreendia, não a compreendiam.

Imagine-se Helena indefesa num mundo em que não é o seu. É obrigada a confiar e viver dependente de pessoas em quem não confia. Após entrar na máquina do sexo, tantas vezes legal, que acresce os lucros por altura de Mundiais de Futebol, ela sofre, sofre até deixar de ser um Ser para passar a um Não Ser; para passar a despir-se à pressa e desinteressada, cair na cama de uma assentada; onde chegam homens a quem não vê caras que se servem dela sem que ela já dê por nada: a não ser um grito que nunca sai. Usam o seu corpo, pagam o preço dele a outros.
Helena não fala, não beija, não geme. Morde e abraça dura e suja.

Imagine-se que Helena se tornou num corpo, adereço num jogo. Um jogo que na sua natureza ilícita favorece um conhecimento desfocado da realidade e mascara sob a tolerada prostituição uma prática de abuso e violência que joga duplamente contra si. Explorada vezes e vezes sem conta, sucessivamente, minuto a minuto, um horror que não tem espaço para sorrisos. Helena já não tem forças nem coragem. Voltar ao seu país era vergonha, era ser tratada como criminosa, desonrada em vez de vitíma, num estatuto de mulher que no seu país… não é estatuto.

Imagine-se que esta mulher, Helena, morreu saia rota subindo a escada, ainda a noite rompendo vinha. Morreu como uma “renda” num negócio onde era um conjunto de retalhos de infelicidade, doente com sida e “usada” demais, dorida de tanta violência.

No sentido contrário (para sul) ao que Helena levou no começo desta estória vai uma outra mulher, ironia nestes destinos. Esta é enfermeira e chama-se Luísa, vai numa ajuda humanitária da ONU prestar apoio a outras mulheres, crianças e homens vitímas de uma guerra onde foram peões ou nem isso. Mais que no sentido contrário do mundo, vai no sentido contraditório do mesmo.

Imagine-se um mundo estúpido em que esta estória é real.

Nota: 87 por cento do tráfico de pessoas é para fins de exploração sexual, sendo que 77 por cento das vítimas são mulheres.
Nota 2: Hoje, o tráfico de pessoas representa a terceira maior actividade comercial ilícita depois do tráfico de drogas e de armas.

Este texto está repleto de adaptações de poemas de escritores portugueses: “O lado errado da noite” (Jorge Palma), “Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto” (Lobo Antunes), “Calçada da Carriche” (António Gedeão), “Mulher da Erva” (José Afonso).


Este texto foi escrito para a secção "Uma história" da revista de nome Solidariedade do CCS-Portugal.



HaloScan.com