20.9.06
espuma dos dias, água do futuro
Sobre a espuma dos dias escrevem hoje Vicente Jorge Silva e Vasco Graça Moura, no "DN". A já famosa aula do Papa na universidade de Regensburg é o mote para o primeiro concluir que a suposta inocência das palavras de Bento pode ser um disfarce de hipocrisia e para o segundo mostrar que a polémica citação estava devidamente enquadrada, usando um "com uma rudeza bem surpreendente e que nos espanta" a começar e um "depois de se ter pronunciado de maneira tão pouco amena" a fechar.
Já o apelo de prudência de Vicente Jorge Silva é mais pertinente:
«seria suposto Bento XVI conhecer esse estado das coisas num mundo onde a irracionalidade das "identidades assassinas", como lhes chama Amin Maalouf, é largamente alimentada pelo ressentimento face ao Ocidente e ameaça ganhar terreno através do universo muçulmano.»

Enquanto isso Carlos Pacheco escreve no "Público" sobre problemas mais graves:
«Um especialista, em declarações ao Der Spiegel, aventava a hipótese de nos próximos anos o preço do barril do petróleo poder ascender a 200, 250 dólares. Um fenómeno que, a acontecer, terá efeitos devastadores porque se traduzirá na derrocada da economia mundial, da qual possivelmente apenas se salvarão (com danos irreversíveis) meia dúzia de países dominantes no macrossistema económico internacional. Este é talvez o grande medo, o pior de todos, que se cola à pele de todos nós quando olhamos ao redor e vemos o vazio civilizacional (...) em que estamos metidos. Mas não é só o petróleo e o gás que fazem perigar o futuro da humanidade pela sucessão de crises, fome e guerras que a satisfação desenfreada e a lógica do mercado promove (o caso do Iraque é exemplar). O ciclo da água está prestes a inaugurar uma nova fase histórica de longas perturbações planetárias, em dimensão não menos explosiva e cruenta que o ciclo do petróleo. Tudo auspicia que este recurso, por ser escasso, se converterá à escala planetária naquilo que o pesquisador Chietigi Bajpaee chama o grande "catalisador emergente" de revoltas, agitações e confrontos bélicos entre Estados.
(...) o mais arrepiante, nas previsões do Banco Mundial, é o que nos reserva o ano de 2025: uma terça parte da população mundial não terá acesso à água, ao passo que a oferta, mesmo nas regiões mais desenvolvidas (segundo projecções da ONU), será 56 por cento inferior à procura. Pois não se pense que este amanhã está longe e se possa esconjurá-lo.
(...)
Um último cenário apoquentador: nos quatro cantos do mundo as comunidades estão a perder o controlo da água. Os governos, ao invés de protegerem este precioso líquido para a recuperação dos seus povos, estão a proceder à sua privatização e a entregá-lo a exploração e comercialização das corporações transnacionais, como a Coca-Cola, a Nestlé, a Pepsico, a Bechtel e a Danone. Resultado: em África (que possui as maiores reservas aquíferas da Terra) os pobres morrem de sede.
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