18.9.06
"crer com dúvidas"
«(...) lembrei-lhe que, desde o século II da era cristã até ao recente reencontro com o apócrifo Evangelho de Judas, a hierarquia da Igreja não foi com os agnósticos que teve mais problemas, mas com os "gnósticos", aqueles que pretendem saber, sem tirar nem pôr, por que razão andamos perdidos e julgam conhecer o caminho exacto para a salvação fora do corpo e deste mundo. A conversa não se resumiu a isto. Foi uma manhã muito teológica, observando-lhe que se não queria ser um agnóstico preguiçoso, ainda teria muito que andar e pesquisar para nascer de novo. Ao pôr do Sol, a questão de outro leitor não andava longe da precedente: "Sou católico praticante e devoto de Nossa Senhora. Acabo mesmo de entrar na capelinha da Senhora dos Navegantes para rezar. Mas tenho muitas dúvidas acerca de vários pontos do Credo." Esta declaração também abriu um longo diálogo, que não iria ficar por ali. Mas comecei por dizer que estaria mais preocupado se fosse um católico fervoroso, como ele de facto era, e que não tivesse dúvidas. Nós só podemos crer interpretando. O terminal da fé não são as afirmações do Credo, mas o Deus inabdicável por qualquer conceito, um princípio interminável de viagem, uma peregrinação sem fim à vista, um aprofundar infinito do desejo de infinito. São os fundamentalistas e os fanáticos de qualquer religião ou irreligião que me irritam. E os ateus também sabem de mais, até sabem que Deus não existe!»
(Frei Bento Domingues, no "Público" de ontem)



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