7.6.06
o Papa em Auschwitz e o abandono de Deus
Um excerto da crónica de domingo de João Bénard da Costa:

«(...) a 28 de Maio, o "Papa alemão" celebrou missa, diz-se que para 900 mil pessoas, em Cracóvia. Mas a imagem que irá ficar desta visita não será por certo a de um homem de branco que sabia possível – ou que acreditava possível – a libertação dos seus compatriotas. Bento XVI já não chegou nem como libertador nem como arauto dessa libertação, da qual aliás, pela sua própria nacionalidade, dificilmente seria o símbolo vibrante que o seu antecessor pôde ser. Agora, a imagem do Papa foi sobretudo a imagem de um homem só, na terrível solidão de Auschwitz. Se, de 1979, recordamos, primordialmente, a festa e a explosão de alegria a custo contida, de 2006 recordaremos, mais do que o Papa em Cracóvia, o Papa em Auschwitz. Nas nossas memórias futuras, não o veremos, como João Paulo II, imerso na multidão, mas sozinho e inclinado, no pórtico do que simbolicamente assinala o maior horror que a humanidade conheceu.
(...) depois daqueles momentos em que o Papa rezou sozinho, levemente agitado pelo vento, junto ao muro dos fuzilamentos, as palavras supremas de Bento XVI foram aquelas em que disse (cito dos jornais): "Num lugar como este, as palavras falham. No fim, só pode haver um terrível silêncio, um silêncio que é um sentido grito dirigido a Deus: porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estava Deus nesses dias? Por que esteve Ele silencioso? Como pôde permitir esta matança sem fim, este triunfo do demónio?"
Que o Vigário de Cristo na Terra – ou aquele que crê e que muitos crêem ser o Vigário de Cristo na Terra – se dirija a esse mesmo Cristo, Deus Nosso Senhor, para Lhe perguntar por que ficou silencioso, onde estava, como tolerou aquilo, é talvez o que de mais ousado e abissalmente radical me lembro de ter ouvido da boca de um Papa.
Todos conhecemos os paradoxos sobre Deus, que se é Todo Poderoso não é Todo Bondoso ou se é Todo Bondoso não é Todo Poderoso. Uma célebre passagem dos Irmãos Karamazoff foi citada nos últimos séculos vezes sem conta e vezes sem conta nos atiçaram com a história do Grande Inquisidor ou com a morte de Ivan Illich. Mas essas dúvidas, essas interrogações abissais, vinham de fora para dentro ou das margens para o centro. Em Maio de 2006, em Auschwitz, a questão veio do próprio Centro e a terrível pergunta sobre o silêncio de Deus foi a terrível palavra de um Papa.

Mas não podemos dizer que foi Bento XVI o mais terrível interrogador. Dois mil antes dele, na Cruz, Aquele que ele representa interpelou Deus – que Ele também era – da mesma maneira: "Eli, Eli, lamma sabachtani?" ("Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?"). E nunca ninguém encontrou resposta para essa pergunta impossível, em que o próprio Deus se sentiu abandonado pelo próprio Deus. A quem, ou com quem, falava Jesus Cristo na Cruz? Quem O ouvia ou quem O não ouvia? Quem não O podia ouvir ou quem não O queria ouvir? E a nossa única fuga perante estas terríveis questões é a que consiste em responder que todas elas são vazias de sentido, pois que nada que se diga sobre Deus pode ter sentido. Como escreveu Simone Weil: "Caso de contraditórios verdadeiros. Deus existe, Deus não existe. Qual o problema? Tenho a absoluta certeza que Deus existe, no sentido em que tenho a absoluta certeza que o meu amor não é uma ilusão. Mas tenho a absoluta certeza que Deus não existe, no sentido em que tenho a absoluta certeza que nada de real se assemelha ao que posso conceber quando pronuncio esse nome. Só que o que não posso conceber não é uma ilusão."
(...) Mas voltemos ao mistério de Deus com Deus. Não é dele ainda que nos fala S. Paulo (II, Cor, 12, 7-10) quando disse aos Coríntios que por três vezes pediu a Deus que dele se afastasse? Mas Deus lhe respondeu: "A minha Graça te basta. Porque o meu poder se manifesta na fraqueza" ("virtus in infirmitate perficitur", como diz a Vulgata).
"Se Deus existe, odeio-O", diz uma personagem de Bergman quando a querem fazer aceitar, na morte do amado, a vontade de Deus. Será blasfémia? Quantos não terão dito, ou sentido o mesmo, no horror de Auschwitz? Mas foi nesse horror – aprendi-o há bem pouco tempo – que uma rapariga de vinte e sete anos, que mais procurou Auschwitz do que lhe fugiu, escreveu esta coisa enorme, tão enorme como as palavras do Papa: "Se Deus deixar de me ajudar, eu estarei aqui para ajudar Deus."

Refiro-me a Hetty Hillesum, uma jovem holandesa que só conheço de passagem e de passagens, e que morreu em Auschwitz a 30 de Novembro de 1943. Não morreu a odiar Deus, não morreu sequer a interrogar o seu silêncio. Morreu a escrever (são das últimas palavras do seu diário) "que talvez não haja uma diferença assim tão grande entre estar dentro ou estar fora do Campo". O que é que isto pode querer dizer é para mim tão misterioso como as palavras de Simone Weil.
Mas, recentemente, contaram-me mais. Dois meses antes, quando os alemães a levaram de Westerbork para Auschwitz – a 7 de Setembro –, conseguiu atirar da janela do comboio um bilhete postal escrito a um amigo.
Quem mo contou, disse-me: "Pensa nos mil acidentes materiais que podiam acontecer àquele rectangulozinho de cartolina sem qualquer valor, abandonado em tempo de guerra, junto a uma linha de caminho-de-ferro. Pensa nos mil acasos necessários para que alguém apanhasse esse postal e o fizesse chegar ao destinatário (um homem muito mais velho, paixão da vida de Hetty, que ela deixara doente e fraco na Holanda natal). Graças a esse gesto, de alguém que nunca se saberá quem foi, é-nos possível ainda hoje ler esse postal, onde, entre algumas palavras de amor, Hetty diz que deixaram cantando o campo de Westerbork.
Foi cantando que morreu em Auschwitz? Quem sabe? Sabe-se é que ela escreveu que "a gente não quer reconhecer que, chegados a um certo ponto, já nada se pode fazer, mas só ser e aceitar". Onde estava o Senhor para Hetty a 30 de Novembro de 1943 em Auschwitz? Não conto esta história, como podem pensar, para amenizar esta crónica ou para a angelizar. Muito pelo contrário. Conto-a para que o terrível silêncio e as terríveis palavras nos ensurdeçam e emudeçam na "treva mais que mística do silêncio".
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Leio e emudeço. Faço silêncio. "Eli, Eli, lamma sabachtani?"



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