4.6.06
24 anos e 1 dia depois
Há 24 anos e 1 dia os meus pais escreveram, num caderno em que escreviam os dois, “FESTA”. Aquela palavra anunciava o nascimento da segunda filha.
Eles não sabiam se o cabelo dela ia ser aos caracóis ou liso como o da irmã. Não sabiam se ia ter sardas e se iria partir a cabeça aos 3 anos num vaso de flores. Não sabiam se a iriam ter de chamar “ideafix” enquanto ela endiabrava pela casa. Não sabiam se seria difícil obrigá-la a experimentar cada novo sabor com insistência ou se ela não saberia nunca os cheiros das coisas. Não saberiam se ela ia gostar tanto da irmã e dos primos… dar-se-iam grandes correrias pelos pinhais, subidas e descidas de árvores, pés na lama, tentativas de mungir cabras e alguns acidentes com pneus a arder?
Não saberiam se teria uma grande amiga chamada Inês no infantário ou se elas se chamariam “piriquita e catatua” por se perderem a rir juntas todos os dias e chorarem por não gostarem de se zangar. Não saberiam se ela teria muito medo no primeiro dia da escola primária e muita impaciência por levar a mochila (que já tinha sido da mãe) com todos os livros e nunca mais começar a aprender a ler (já todos sabiam menos ela).
Não sabiam se ia encontrar grandes amigos logo desde pequena. Se iria acampar dezenas de vezes, fazer muitas coisas que os assustariam, mas crescer sempre com outros… a saber que havia formas de falar diferentes, caminhos para a escola muito mais longos que o dela, pessoas que ficavam em casa porque nevava e que discutiam com muito afinco as ideias mais incríveis. Na saberiam se passaria muito anos sem dizer uma palavra em reuniões até começar a dizer algumas.
Não saberiam se guardaria tanta admiração pelos os avós, como os levaria com ela vida a fora. O avô João a endireitar pregos ao sábado de manhã e a falar-lhe ao ouvido na missa, a avó Palmira a fazer sopa de feijão e a ser uma mulher muito corajosa, o avô Mateus a contar histórias, a dizer-nos do que era bem e do que era mal ou a ressonar no sofá.
Não tinham como imaginar se ela iria ter sempre demora nas amizades, se seria a alguns que reservaria partilhar a vida.
Naquele dia não contariam que ela vomitasse antes das orais difíceis e que teria dúvidas enormes sobre a vida profissional. Também não afiguravam que o melhor remédio para todos os choros e todos os nervosismos fosse fazê-la andar, andar, andar… sem importar por onde, desde que tivesse companhia.
Não saberiam dos seus gostos.
Não podiam supor se seria difícil defini-la de forte ou de frágil…

Não imaginavam que quando fizesse 24 anos iria à praia com amigos (que já não vivendo em Coimbra tinham vindo passar o dia com ela) que iria comer açorda de gambas, com um bom vinho e música ao vivo… numa esplanada, a suspirar a férias e a rebolar entre a areia e o mar.
Não podiam imaginar que aquela palavra “FESTA” se repetiria tão bem no seu dia, 24 anos depois.



HaloScan.com