30.5.06
gauss
uma_imagem_gira

Já têm brincado comigo por causa desta curva.
Entre o estudo e a vida confesso me agradam as suas pontas. Nem demasiado frequentes nem demasiado bizarras. Surpreendente, é uma palavra que gosto.

26.5.06
Graffiti
Muito se tem discutido sobre os graffitis, principalmente aqueles que se escrevem nas paredes da respeitabilíssima universidade. Com os anos habituei-me à sua presença, à novidade que alguns traziam.
Agora estão todos a branco. A propósito de preservar os edifícios e, dizem outros, por causa da candidatura da Alta de Coimbra a património mundial da UNESCO. Nas pedras dos edifícios agora já não se lê nada. Quadrados brancos num fundo amarelado. Tela nova que a reitoria ali deixa para quem se irrita e volta a pintar.
Agora já não se lê aquela frase que divertia "amo-te caneco!". Mas essa era recente. Eu tenho pena que já não se leia:

"Atenção caloiros: Este é um novo mundo, aqui estuda-se a um nível superior, aqui a ordem é inovar para melhor, ensinar para preparar, e se fores bom aluno serás recompensado.
Atenção caloiros: É TUDO MENTIRA!!!"

(estava na faculdade de matemática, junto às escadas que descem para o estacionamento)

"Nós somos melhores que os americanos"
(estava no departamento de antropologia)

"Respeito pelos direitos humanos dos povos ÍNDIOS"
(estava na faculdade de medicina, com um desenho de um índio a fumar)

"Palestina aos palestinianos"
(já não me lembro se ela bem assim, estava no departamento de física)












(estava por baixo de um conjunto daquelas estátuas horrorosas que povoam as faculdades)

António Marinho e Pinto (em palavras citadas pela "A Cabra" - jornal universitário") disse:

"escrever nas paredes da sua universidade é uma regalia dos estudantes de Coimbra, mas é claro que nelas há inscritas mensagens desagradáveis e faz-se censura"

"a candidatura da cidade tem mais a ver com aspectos materiais e culturais do que com as próprias construções em si, até porque se olhássemos apenas para o tipo de arquitectura da Alta, esta jamais poderia ser elevada a património mundial"

"Repugna-me que façam pinturas nas paredes da Sé Velha, Sé Nova, na Biblioteca Joanina, mas não me repugna nada que o façam nas paredes da Faculdade de Letras ou da Biblioteca Geral, pois são locais que classifico como mamarrachos do Estado Novo, que nunca serão monumentos, a não será à estupidez"











Esta imagem estava em frente à faculdade de medicina, no departamento de química e quem tirou esta foto usou-a para propor que pensássemos nos nossos projectos de vida (tínhamos 15 anos, quem ainda sabe quem é que aparece na foto?). Já lá não está.

É verdade que há graffitis muito foleiros, mas também é verdade que os inteligentes, os revoltados, os gritos de vontade de mudança têm muito mais impacto assim. E gostava de ver como assuntos tão diferentes se misturavam num local que assim era mais sentido. Pensar porque é que alguém se lembrou de aqui escrever aquilo! Paredes cruas e austeras não são muito da minha simpatia.
(curioso que as imagens destes graffitis que encontrei na internet estejam em páginas de estrangeiros)

Confesso que a minha frase preferida estava na faculdade de letras e dizia:
"ISTO JÁ NÃO É O QUE NUNCA FOI".

25.5.06
Novo comtextos nas "bancas"















Não revelarei mais pois os correios atrasam-se.
Deixo aqui apenas o desabafo que já prestes ao fim do meu mandato como directora me senti muito feliz em receber este novo número do comtextos... é sempre uma emoção que não se explica! E um pouco triste por estar a acabar o meu contributo. Espero que gostem.

24.5.06
Profissionais
Ele só nos veio dar 3 aulas. Num ritmo alucinante, oscilando entre a gargalhada mais tímida e o olhar mais furioso deste mundo, ele passou a aula de hoje a provocar-nos!
Passava slides e mais slides com fotografias e atirava-nos à cara que se aquelas crianças não tivessem tido o diagnóstico em minutos (muito difícil entre o mortal e o mais banal) e o tratamento imediato "teria morrido", "teria morrido", "teria morrido"... e por vezes (mesmo admitindo os próprios erros... que é preciso uma coragem rara entre os meus professores) dizia "esta morreu"... "morreu".

E eu estava petrificada. Depois ele disse que, como em tudo, há dois tipos de profissionais os "treinados" que cumprem regras, hábitos, rotinas, que decoram o típico descrito nos livros e as raridades deixam morrer. E os profissionais "formados" que estudam, exigem, procuram, preocupam-se, observam e voltam a observar, sofrem... e esses podem encontrar as hipóteses difíceis e raras. Esses salvam mais vidas.
E depois voltou à carga "Infelizmente muitos de vocês nesta sala serão apenas treinados".
E toda a gente concordou (e ele não gostou, pediu que dissessemos que não). E toda a gente concordou com um sorriso de "eu serei formado mas sim, os ranhosos dos meus colegas serão treinados".
Senti-me a única cheia de medo de vir a ser "treinada". Com a agravante de não ter memória. Vontade de desaparecer dali.

22.5.06
fé e política -- homenagem a D. António Ferreira Gomes
Anselmo Borges prestou, no domingo 14 de Maio, uma boa homenagem a D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto que afrontou o Salazarismo. Revisitando um diálogo entre Ferreira Gomes, Óscar Lopes, Luís Moita e Frei Bento Domingues, fala da novidade transformadora do cristianismo, de como ele pode fazer a religião transcender o "ópio do povo". Começa na religiosidade popular de Fátima, fala de fé e transcendência, para terminar, como era inevitável, na política. Deixo um recorte, e convido à leitura do texto disponível na página do DN:

«A atitude religiosa aparece, portanto, no movimento do transcender do homem para o transcendente. Onde se encontra então o que é próprio do cristianismo?
D. António afirmou que poderíamos (..) aceitar que o cristianismo não é religioso, na medida em que o Deus revelado em Cristo não serve para nos solucionar problemas insolúveis e os homens têm de arranjar-se autonomamente sem apelarem para Deus.
O Deus cristão não é ópio nem um deus ex machina com que se negoceia promessas. Ópio e promessas - isso é o religioso que está para baixo. "A religião cristã, entretanto, o limiar diferencial da religião cristã começa quando alguém se debruça sobre o outro, quando alguém se volta para o que o transcende, seja o outro neste mundo, seja Deus enquanto o Outro absoluto, sabendo que a relação ao Outro absoluto é exactamente também a relação ao irmão."
O amor a Deus e o amor ao próximo são um só e têm de exprimir-se também na política. "Nenhum homem responsável da Igreja poderá dizer que não quer saber de política ou que nada percebe de política."
»

Jesus codificado
O Código Da Vinci deixa-me completamente indiferente. Apesar disso, e de me ter escapado de o ler, o "fenómeno Código da Vinci" não me larga. Em várias conversas, almas pouco piedosas e sobejamente subinformadas dizem qualquer coisa como: "pois, aquilo são um monte de tretas, mas se calhar, lá no fundo há alguma coisa suspeita com um bocado de verdade...". Numa das conversas alguém disse que "há muita coisa que não está lá", ao que eu repliquei que estão lá é coisas a mais. Mas adiante, que para quem não quer saber a suspeita basta.
O que mais impressiona é como se consegue passar completamente ao lado das questões pertinentes para nos preocuparmos com o acessório. No "Público" de ontem, Frei Bento Domingues, disse o que há a dizer acerca da histeria Código da Vinci:

«Agora, porém, não é Fátima nem o Papa que enchem os meios de comunicação. O que mais conta é aquilo de que não se pode saber rigorosamente nada. Com a suspeita de que a Igreja ocultou a realidade humana de Jesus, o seu fascínio transferiu-se precisamente para o apócrifo, para o oculto. O Código Da Vinci deixa-me completamente indiferente. Que Jesus tenha sido celibatário ou tenha deixado um rancho de filhos não afecta, em nada, a minha fé na sua misteriosa e fascinante personalidade. Jesus Cristo nunca se apresentou com a missão de aumentar a natalidade. Deu a vida pela transformação da terra em reino de Deus, isto é, num mundo fraterno. A sua vida privada nunca interessou os primeiros que escreveram sobre ele, nem a mim me interessa.»

21.5.06
movimentos também
"O Carlos tinha uma militância romântica, corajosa, abnegada"
Parei um pouco no meio do filme e lembrei-me de muitas coisas. Fico sempre contente quando encontro pessoas que assim são até ao fim da vida.
Pelo contrário fico sempre triste quando encontro quem, aos vinte e poucos anos, já desistiu de ser arrebatado.

em movimento
"Movimentos Perpétuos", tributo cinematográfico a Carlos Paredes. Um filme feito para acompanhar a música do Paredes. Ao contrário das bandas sonoras que são feitas para acompanhar os filmes respectivos, este é um filme feito para acompanhar as músicas. Edgar Pêra leva-nos numa visita ao mundo de Carlos Paredes em 17 movimentos. Com muita música, conversas do artista e testemunhos de gente próxima. E imagens, muitas imagens a fazer de "banda visual". "Um diálogo entre uma guitarra e uma câmara de Super8" diz o CineCartaz. Com muito movimento, como não podia deixar de ser. Deixo 17 recortes:

um «Ele entrava em palco com aquele ar de quem pede desculpa de existir.»

dois «Desculpem lá o tom, mas às vezes entusiasmo-me e vou conversando como se estivessemos no café.»

três Uma serenata feita ao empregado do hotel que não pôde assistir ao concerto.

quatro
paredes

cinco «Ter gente dentro da guitarra.»

seis Gostava da gente, das pessoas das ruas, dos bairros, dos que iam "à terra" nas poucas férias que tinham, de descobrir de onde vinha um assobio tão sentido do pedreiro que trabalhava na esquina.

sete «A guitarra fala na vida.»

oito
paredes

nove »O Paredes não tocava apenas por instinto e génio natural, tinha uma gramática própria, exprimia-se, no sentido pleno da palavra, pela guitarra.»

dez Trabalhou como arquivador de radiografias no Hospital de São José - até que, já nos anos 80, um ministro mais atento o promoveu, à sua revelia, a um cargo onde não tinha que fazer rigorosamente nada.

onze
paredes

doze «Já me tem sucedido fazer as pessoas chorar enquanto eu toco... E eu não compreendia isto, mas depois percebi que é a sonoridade da guitarra, mais do que a música que se toca ou como se toca, que emociona as pessoas.»

treze «Acredita que, se os outros afirmam algo, é porque como ele faz, dissecaram em conversa prévia com os seus botões antes de botarem sentença. E como, para Paredes, seremos sempre mais do que ele capazes de, após reflectir, ver correctamente a essência das coisas, temos razão e ele vai pensar nas novas perspectivas que lhe abrimos, no que 'aprendeu' connosco» (Expresso, 21.3.92)

catorze
paredes

quinze «Quando eu falo de pequena música, pretendo apenas qualificar música que, estruturalmente, é simples e que pode até ser, do ponto de vista estético pouco apreciada, mas que não deixa de ser música. Se eu toco para várias pessoas que me ouvem com atenção, é porque lhes estou a dar prazer. E mesmo que esteticamente seja uma música menor, em termos de qualidade, não tenho que me envergonhar dela, não acha?»

dezasseis Um homem profundamente humano.

dezassete Ouçam a música e não é preciso mais leituras.

17.5.06
Grandes Mestres da Pintura Europeia nas Janelas Verdes
O Museu Nacional de Arte Antiga acolhe a exposição temporária "Grandes Mestres da Pintura Europeia" até 17 de Setembro. A não perder.

uma_imagem_gira

15.5.06
por esse mar
Ele falava devagar. Parecia ter a sabedoria de um sábio mas num sorriso de menino. Sabedoria que vem do mar, do saber estar sozinho. Sozinho dias e dias e semanas a fio. Sozinho no mar… entre o falar com o piloto automático do barco (a quem deu um nome e se portava mal) e os headphones a ouvir Sinatra ou Nat King Cole enquanto o mundo desaba em água contra o barco. E depois também pode cantar, pode escrever, gosta de desenhar. Um caderno (lembra-me outras viagens).
Falava de como não pôde dar a volta ao mundo quando tinha 17 anos e isso o ter zangado muito com aquele mundo. Mas que com isso percebeu que há a paciência, o trabalho, o viver noutros sítios, o crescer, o esperar. Um filho que nasce e torna a solidão das viagens mais difícil. Questiona-se. E um dia fará a volta. Porque nada disso significa esquecer.
Ricardo Diniz é velejador e muitas outras coisas.
Escreveu no Comtextos que sai esta semana!

12.5.06
IndieLisboa 2006 em Coimbra
MEGACITIES

"No início deste novo milénio, e pela primeira vez na história da humanidade, a maioria das pessoas vive em grandes centros urbanos. Este é o pretexto para MEGACITIES, um documentário arrojado de Michael Glawogger que observa à lupa o submundo de Bombaim, México, Moscovo e Nova Iorque, quatro exemplos de metrópoles excessivamente povoadas, monstros simultaneamente sedutores e repelentes. Em doze capítulos e onze testemunhos, o realizador esboça um retrato destas populações, e da sua luta diária pela sobrevivência. Apesar da distância cultural e geográfica, partilham problemas como a prostituição, a falta de casa, o crime e a toxicodependência. Mas têm também em comum a resistência e a esperança, a coragem e a dignidade. Porque se este é um documento sobre trabalho, miséria, violência, amor e sexo, é-o também sobre a beleza das pessoas."

Impressionaram-me sobretudo as pessoas, os locais em que viviam, a vida lamacenta em que se moviam. O filme é muito bom e isto é cinema. Esta mulher foi uma das vidas que me transformou. É inacreditável as formas como se vive neste mundo. Os locais. As histórias. A sujidade e, no entanto, um sentido qualquer que não consigo entender...
De facto não sei nada do mundo.

10.5.06
Manifestações de Alegria
Associo-me ao aniversário do Optimista por Opção com as minhas manifestações de alegria.

A chuva que hoje não caiu
"Nesse aguardo, eu me distraía olhando os milhares de arco-íris que luzinhavam a toda a volta. Nunca nenhum céu se tinha multiplicado em tantas cores. Dizia minha mãe, a chuva é uma mulher. Uma dessas viúvas de vaidade envergonhada: tem um vestido de sete cores mas só o veste nos dias em que sai com o Sol."

Mia Couto, pois.
Resultado da feira do livro deste ano e dos únicos 5 euros que tinha na carteira. Consegui-o por metade do preço por estar muito amassado... mas, lá dentro todo ele é bem escrever e as ilustrações são muito bonitas.

9.5.06
O exemplo
Nos últimos tempos apercebi-me de como o "o exemplo" é de facto importante.
Sempre detestei que dissessem "é preciso dar o exemplo". Não gosto, dá um certo ar de quem faz bem só para que outros vejam. Não gosto.
Mas dei-me conta que a atitude da primeira pessoa a fazer algo é importante para a forma como os outros o farão.

Tão simples como ter 3 minutos para nos apresentarmos a outra pessoa olhando-a nos olhos, era-nos pedido que disséssemos o máximo de informação. Se a primeira pessoa tiver vontade de entrega tudo será mais intenso. Se resolver falar de trivialidades tudo poderá ser oco.

Tão simples como a primeira pessoa que escreve uma dedicatória num livro que se oferece em grupo o quiser fazer mostrando o que sente.

7.5.06
Possibilidade
No editorial da Egoísta de Setembro de 2003 lê-se esta história que dizem pertencer a Albert Einstein:

"Era uma vez uma criança que, subitamente, vê o seu amigo a afogar-se sob uma placa de gelo. Pega numa pedra e começa a golpear, com todas as suas forças, até quebrar o gelo e salvar o amigo. Chegam os bombeiros e, estupefactos, perguntam ao menino: como é que conseguiste fazer isto? É impossível teres quebrado tal espessura de gelo apenas com essa pedra! E as tuas mãos são tão pequeninas!...

Apareceu um ancião e disse:
Eu sei como ele conseguiu.

Todos perguntaram:
Como?

O ancião respondeu:
Estava sozinho e ninguém o avisou que, sem ajuda, ele não iria conseguir…"




Este post está aqui para calar todos os que têm a mania de dizer que as coisas não são possíveis. Espero que se sintam responsáveis pelo que não acontece à sua conta.

5.5.06
"Tsunamis Silenciosos"
















1º Prémio «Cartoon Editorial» «Tsunamis Silenciosos», de Alfredo Sábat (Uruguai), publicado em 15/04/05 em «La Nácion» (Argentina)

3.5.06
Hoje e Amanhã
No seguimento do workshop de Clown senti que ficaria um vazio no deixar aquela sala preta, a caixa preta… aquelas pessoas. Aceitei fazer parte a aventura de participar num espectáculo todo montado em 2 semanas. Tínhamos apenas um título “Tudo isto é circo” e uma série de ideias a vaguear dentro de cada um, surgidas de outros workshops que fomos fazendo (onde mais que tudo aprendemos a falhar, porque são tudo disciplinas de muito treino). Ninguém sabia o que seria. O grupo nunca tinha trabalhado junto numa peça (cursos de iniciação diferentes e eu que não sou do CITAC).
Chateámo-nos muito, perdemos sono, perdemos descanso, perdemos o ar naquela sala, perdemos vontade, perdemos a confiança. Coisas únicas dentro da sala preta, ecoando as nossas gargalhadas e os nossos desvarios. Não se repetem. Até à última sem saber o que seria.
Mas o espectáculo estreia hoje. A quem quiser ir que não espere uma grande produção nem um circo bonito, nem um circo imitado. Estou certa de que de algum momento gostarão, outros não. A banda sonora vale a pena.
Hoje e amanhã no teatro-estúdio do CITAC, no edifício da Associação Académica, às 21.30 com 1 euro.
Conselho vital: t-shirt e uma garrafa de água.
(o CITAC = Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, fez 50 anos de teatro experimental!)



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