14.4.06
Uma caixa preta
Entrar num paralelepípedo todo preto. Uma porta pequena a meio. O espaço quase todo para nós, um de cada vez, dois focos apontados a uma cadeira. Castanha. Velha. Que range. Vazio. 10 pares de olhos à espera. Dois pares correspondem às duas única bocas que falarão. Não os conheço quase.
A proposta: esvaziar completamente a cabeça, leva-la a zero, responder a todas as proposta que nos fizerem. E o espaço é todo nosso e o tempo nunca foi, até ali, menor que 40 minutos.
Mas a cabeça entra sempre… e tudo o que lá tem dentro. Mas aquelas duas bocas tratam de a esvaziar, de nos desatinar, de nos provocar à exaustão, ao desespero… ao grito ou à dança e música mais desvairada. Trinta por uma linha.
Sejam honestos. Dizem vezes sem conta. Sem caretas! Sem teatro! Sem plano! Sem rede! Sem tempo para pensar… é Agora!!! Faz! Não penses, não penses! Não expliques, faz! Honesto!
E a cabeça esvazia mesmo e já só respondemos ao corpo e toda e qualquer ideia que nos surja na cabeça, antes de se formar, já está em acção. E já não sentimos o medo do ridículo, já não sentimos as dores musculares de todos estes dias. Todas as propostas têm de ter resposta.
O palhaço tem de despir tudo para poder estar apenas com o público. Sem tanta inteligência ou artimanhas, responder ao corpo e ao público.
No final, ao passar novamente na pequena porta, o formador gritou-me muito contente: “és uma mulher de explosões Inês!!”… e senti-me séria, por instantes depois do riso, o meu trabalho de anos ali desmoronou. Voltei a sentir-me bem, só não sei como descobriram por onde me pegar... talvez nos tenhamos surpreendido todos. Voltei, sem vontade a comentários e ninguém os fez nessa altura. Delicioso alívio apenas.



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