6.4.06
ecos das IX Jornadas de Universitários Católicos
A Igreja face à mudança
(Frei Bento Domingues, OP)

«1.Decorrem, em Leiria, as Jornadas de Universitários Católicos (17-19 de Março) com o tema Redescobrir a cidadania - contributos para a mudança. No seio dessa vasta problemática, coube-me participar num debate mais circunscrito, precisamente, sobre A Igreja face à mudança: desafios para o dia de hoje.
Sei que há pessoas para quem não vale a pena gastar tempo com desafios perdidos à partida: a Igreja é, por natureza, conservadora, imobilista. Dizem que está blindada com dogmas, doutrinas, estruturas e costumes contra a mudança. Está sempre a repetir que tem de guardar o "depósito da fé", de manter a tradição e os rituais que a transmitem. Dá a imagem de uma indústria de conservas.
Não faltam exemplos. Na Igreja católica romana, a ordenação de homens casados está proibida. Alguns até sabem que é uma decisão disciplinar sem qualquer base bíblica ou dogmática: os apóstolos eram casados, nas Igrejas de rito oriental, ligadas a Roma, há padres casados, a disciplina do celibato é tardia e pode ser alterada. O celibato opcional é um belo carisma que se dá mal com o regime de imposição. Mas os anos passam e esta reivindicação, de tão repetida e sem sucesso, acaba por adormecer cansada.
A ordenação de mulheres, celibatárias ou casadas, continua um assunto mal arrumado. Também não é por razões de tipo dogmático que se recusa esta hipótese. É, no entanto, uma posição "irreformável", categoria teológica da preferência do cardeal Ratzinger...
Diz-se que as mulheres não estavam na Última Ceia. É mais fácil encontrar argumentos em favor da sua participação do que da sua ausência. Não se tratava, afinal, de uma ceia pascal, isto é, de uma ceia de tipo familiar? O destaque dado, nas narrativas evangélicas, aos Doze Apóstolos obedece a outra lógica. Aliás, se esse argumento fosse tomado a sério, as mulheres também não poderiam ir à missa! Creio, por isso, que o cardeal Ratzinger fez bem em retirar do campo dogmático a impossibilidade da ordenação das mulheres para ficar, apenas, numa posição "irreformável". No estado actual das mentalidades eclesiásticas, não se vê bem como poderia dizer outra coisa.
Fala-se da democratização da Igreja. O prof. Ratzinger, enquanto jovem teólogo, não era nada alérgico à ideia. Depois, esqueceu-se. Não deve haver muita gente que gostasse de ver a Igreja transformada no que são hoje as democracias. Elas também precisam de uma profunda mudança para serem democráticas. A Igreja está mal quando é menos do que uma democracia. Tem de ser muito mais. Pertence-lhe, por natureza, ser um sinal e um instrumento de fraternidade no mundo.
Nos anos 60, o Vaticano II convidou a Igreja a repensar todas as questões relacionadas com a sexualidade e contracepção. A Humanae Vitae de Paulo VI, árvore de maus frutos, tinha carácter provisório. Passou a doutrina intocável, sabendo-se que o não é. Resultado: a Igreja institucional ficou sem grande autoridade para se pronunciar sobre estes temas. As controversas posições no campo da bioética precisam de mais investigação.

2. Por estas e outras razões, há católicos que desejam um novo concílio ecuménico. O Vaticano II (1962-65), através dos movimentos - bíblico, litúrgico, teológico, pastoral, operário, ecuménico, missionário, social, de renovação da arte sacra, etc. -, foi preparado, no meio de muitas condenações e sofrimentos, e acabou por ser convocado pelo gesto profético de João XXIII. Constituiu urna mudança cultural, teológica e pastoral fantástica. Nenhuma instituição religiosa ou política foi tão longe sem se destruir.
Lembremos que começou a descentrar a Igreja para Jesus de Nazaré - na sua prática, mensagem e presença, testemunhadas no Novo Testamento -, para as outras Igrejas cristãs (diálogo ecuménico ), para as religiões não cristãs (diálogo inter-religioso) e para o mundo contemporâneo a compreender e a evangelizar em diálogo.
Mas o Vaticano II era, apenas, um programa. A sua realização foi, como não podia deixar de ser, muito controversa. Entretanto, o mundo não parou à espera da Igreja. Os termos da relação com as outras Igrejas cristãs, religiões e mundo contemporâneo já não são os mesmos de há 40 anos.
Como sintetizou Atiselmo Borges: "O novo paradigma é pós-industrial, pois caminhamos cada vez mais para uma sociedade do conhecimento, da informação, da comunicação e da prestação de serviços. Isto implica, por exemplo, um novo conceito de trabalho. Também se torna claro que o trabalho será cada vez mais um bem escasso, que precisa de ser partilhado, com todas as consequências. Torna-se igualmente urgente apostar na cultura, no quadro de um diálogo verdadeiramente multicultural. Não basta incidir na tecnologia, esquecendo a formação cultural, artística, também para que as pessoas possam viver em realização humana autêntica, plena. O novo paradigma é inevitavelmente pós- patriarcal. A emancipação feminina é uma das maiores revoluções da segunda metade do século XX, cujas consequências, na família, na compreensão da sexualidade, na relação entre os sexos, na sociedade em geral, incluindo a economia, estão ainda em curso." (1)

3. Importa, por estas e outras razões, começar já a preparar um novo concílio ecuménico. E não há que ter medo das mudanças (2). A autêntica tradição da Igreja é uma tradição de inovação. Os textos do Novo Testamento não podem ser mais claros: "Ninguém faz remendo de pano novo em roupa velha; porque a peça nova repuxa o vestido velho e o rasgão aumenta. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; caso contrário, o vinho estoura os odres e tanto o vinho como os odres ficam inutilizados. Mas vinho novo em odres novos!" (Mc 2, 21-22).
Jesus surge em luta contra todas as instituições religiosas, sociais, económicas e políticas que oprimem o ser humano: "O sábado é para o homem e não o homem para o sábado." Não aceita nada como fatal. Nem a morte. Difundiu um espírito que "faz novas todas as coisas" (Ap 21, 5).
Mas não há, aqui, o elogio da mudança pela mudança: "Para melhor, está bem, está bem / para pior já basta assim"...
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