6.3.06
Admirável mundo
Nem sei explicar porquê a imagem dela vibrante de entusiasmo voltou ao meu pensamento. Ela andava de um lado para o outro da sala, muito segura do que nos estava a ensinar, ainda que essa função, para ela, não parecesse a mais relevante. Ela estava a falar de funções nervosas superiores como a linguagem, a memória, o comportamento, a orientação, etc.
Eu olhava esperando um dia dominar assim algum conhecimento. Ser capaz de o virar de trás para a frente, desafiá-lo em todas as perspectivas, dar exemplos, ser útil, mesmo útil nesse meu conhecimento.
E no entanto a aula tratava do cérebro, essa caixa branca de mistérios e incompreensões. Estranho órgão que só deixa adivinhar a sua espectacularidade quando, infelizmente, algo falha. Durante muito tempo só pelos exemplos das falhas nos fomos conseguindo aproximar de algum entendimento do seu funcionamento normal (digo, fabuloso).

A LINGUAGEM é qualquer coisa de incrível. Está quase sempre no hemisfério esquerdo e vê-se por marcadores coloridos que se destacam (vê-se no computador) quando a pessoa fala dizendo “pão, arroz, massa”. Uma pequena lesão pode colocar uma pessoa a falar, falar, falar e não se perceber uma palavra. Ou então fala só com expressões coloquiais como “ora essa” ou “pois então”. A escrever também é incompreensível. A pessoa tem o código e sabe o que quer dizer, apenas não o consegue vocalizar. Uma lesão noutro local faz com que a pessoa quase não fale, e quando fala o discurso é agramatical: “Cadeira. Olhe. Olhe. Cadeira.”

A AUDIÇÃO
Hemisfério Esquerdo: cálculo, música, os códigos.
Hemisfério Direito: ruídos, melodias.

Lesão do lado esquerdo dá surdez verbal: deixam de entender o código da linguagem... é o taxista que percebe tudo o que dá no rádio menos o noticiário!

A VISÃO
Numa lesão bilateral do córtex visual (a pessoa deixa de ver, porque embora os olhos estejam bons o cérebro não recebe nenhuma da sua informação) e não saber, não ter noção que não vê… Então perguntamos: “diga como é que eu sou” e a pessoa responde “nem alta nem baixa, o cabelo é assim-assim, nem gorda nem magra”. As outras pessoas podem não dar facilmente pelo erro.

Chama-se anosagnosia (ausência de conhecimento da doença) e pode acontecer quando a pessoa vê mas perdeu a capacidade de reconhecer as funções dos objectos… então pode descrever uma caneta como “É uma coisinha. Um pausinho.” E não sabe como utilizá-lo. Mas nunca diz “Não sei!”. Pode também ignorar um lado inteiro do corpo… e da vida… se a lesão os faz ignorar o lado esquerdo do corpo só falarão para a direita, só comerão o lado direito do prato, só copiarão o lado direito de um desenho.

A ESTRATÉGIA
O lobo frontal é o lobo das estratégias, é formal, é de inteligência. É o lobo dos matemáticos. O plano a definir pode ser o de como conquistar alguém, por exemplo. Inibe os erros. Uma pessoa com uma lesão aqui deixa de ter iniciativa para se levantar e ir tomar café. Quando tem uma iniciativa normalmente dá mau resultado, é por impulso, é primeira ideia. Comete sempre os mesmos erros. São desinibidos, não têm crítica social, são impulsivos (e ao mesmo tempo apáticos), infantis (este lobo, curiosamente, só termina maturação aos 18 anos).

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Finbarr O'Reilly, Canada, Reuters.
Mother and child at emergency feeding center, Tahoua, Niger, 1 August

(Porque será que na barriga da mãe 80% das vezes a mão que está na boca é a direita? Se até aos 3 anos as crianças não têm lateralidade? - eles ainda não são dextros nem canhotos)

Com este post deixo apenas ideias soltas e pouco “cientificamente” elaboradas ou infalíveis. Gostava só que pensassem, como é incrível a forma como algumas pessoas vivem. Muitas delas apenas algum tempo, outras para sempre mas aprendendo a viver com a sua novidade. Especialmente gostava que pensassem como o nosso funcionamento no dia a dia está dependente de uma estrutura tão admirável. PORQUE CUIDAMOS DAQUILO QUE GOSTAMOS
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