29.3.06
Currahee ou estar no lugar errado à hora certa
À conta dos DVD's lá de casa, decidi rever os pisódio do "Band of Brothers" (Irmãos de Armas). É aquela série sobre a "Easy Company", uma companhia de infantaria aerotransportada que combateu atrás das linhas inimigas na II Guerra Mundial.

"Currahee" é o título do primeiro episódio que nos conta a história da recruta dos Easy boys. Pode dizer-se que a personagem central deste episódio é o tenete Mehan, responsável pela recruta. O seu passatempo favorito é infernizar a vida aos rapazes. Uma das formas de o fazer é subir o "Currahee", uma montanha perto do campo de treino. O lema é "Three miles up, three miles down"... sempre a correu, seja a que horas for. Ora o tenente Mehan que é tido como o melhor instrutor chega com os seus homens à fase de exercícios de combate. Ele é responsável por guiar os homens em várias simulações contra outras companhias. Acaba por se revelar um desastre no campo de batalha, cometendo erros crassos e levando os homens que tanto o aturaram a recusarem segui-lo para a Normandia. Com mais alguns incidentes, o tenente brilhante acaba por ser chutado para cima -- o seu superior envia-o para outro campo de treino disfarçando a manobra de promoção. Os homens vêem-se livres do instrutor e emerge o novo comandante da Easy -- Winters -- que se revela um às no campo de batalha já no segundo episódio.
O melhor instrutor formou a melhor companhia. Mas Mehan não queria só ser o melhor e formar os melhores. Desejava comandar os melhores. O paradoxo vem a seguir: não se apercebeu que o seu jeito acabava no campo de batalha. A Easy foi uma companhia brilhante e deve uma parte disso a Mehan. Mas o seu mérito (e o seu jeito) acabavam na instrução dos recrutas. Não percebeu que era esse e só esse, o seu lugar. A partir daí estaria no lugar errado. Mesmo que acertasse com a hora, só conseguiria estar no lugar errado à hora certa. Nunca o contrário.
É preciso um certo discernimento para perceber a nossa hora e o nosso lugar.


26.3.06
Talvez amanhã seja domingo no mundo
Hoje cheguei ao final do longo passeio e fi-los voltar tudo para trás porque me tinha esquecido da chave do carro no início. Todos rimos e passaram o resto do dia a brincar com as minhas distracções.
Hoje estava muito cansada mas segui um conselho e fui ver a peça “Bão Preto” da Comuna. Pela primeira vez vi o rapaz do som no palco e senti-me dividida entre segui-lo nos seus movimentos incríveis e suaves ou seguir a delícia da história. Aquele negro esculpido (fez-me lembrar o Velutha do "Deus das Pequenas coisas") não disse uma palavra em português durante a peça inteira, mas derreteu-nos no seu embalo. Ri-me tanto como as crianças da sala, assustei-me. Cantei com todos: njanndele tancoxi njanndele tancoxaua
Hoje cheguei a casa. A minha cara estava queimada do sol e o dia anoiteceu consolado.

24.3.06
Directamente da Gare de Lest
Em situacao de info-excluído pedi informacoes sobre as manifestacoes em Franca a um especialista. Foi-me útil, espero que também vos seja.

André Belo em discurso directo.

Um postal de Berlim

Berlim - Mitte. 24.03.2006

"Ein kaffee, bitte!", digo em mau alemao enquanto me sento para escrever.

Tenho pensado muito no tempo e no espaco. No tempo pessoal e na influencia que tem em nós, no espaco que encontramos para nós e para os outros em nós.

Aqui. Encontro doutra forma os meus ritmos e entendo melhor o meu "ninho" donde vim. As pessoas. Os lugares. Mas também a luz, os cheiros e as músicas. Quando aí chegar entendo melhor quem me vou (re)criando agora.

Berlim é genial. As ruas grandes servem para respirar. Com a chegada da primavera já nao se enfiam gorros, cachecóis ou luvas. O boneco de neve derreteu e os trenós arrumam-se no fundo com um "até pró ano". Talvez lhe faltem meandros e disparates. Acho que até eu ando melhor comportado.

Adoro passear sozinho. Penso e fotografo o que penso. Que calma.

Espero que por aí esteja tudo bem.
Saudades tuas. Tschüss

ps: a ilustracao é o memorial ao holocausto, nao querem esquecer o que o mundo fez.

23.3.06
Reclamação
- Boa tarde, vim pagar os 0,95 euros que a sua colega não me cobrou.
- Ah! (percebi que sabia a minha história) Ainda bem que veio por não se escapava de lhe desactivarmos o cartão!! Aqui está a sua factura, prova que pagou 5,95 euros.
- Sim.
- Então boa tarde.
- Obrigada, mas quero o livro de reclamações.
- Quer o livro de reclamações??? (pareceu levar um choque e esbugalhou os olhos)
- Sim, quero.
Deu-me nervoso o livro. E atendeu o outro cliente. Eu fui (d)escrevendo um rol de maus serviços num só dia. E então ele veio ter comigo, a forçar a simpatia mas sempre recriminador. Queria saber se era por causa de me terem obrigado a voltar à loja por causa de 0,95 que erradamente não me cobraram. E eu expliquei-lhe tudo, desde o início, com toda a calma. E ele sempre a defender-se.
O José Pedro Gomes também fala disto no seu novo espectáculo, esta história do reclamar em Portugal ainda é visto como uma afronta, um cliente parvalhão que vem aqui por em causa o nosso trabalho. Ficam a tremer, começam a engraxar, chamam toda a gente, um grande alarido de que se falará nos próximos dias. (vejam lá que tinha ar de santa, a sacana!)
Expliquei-lhe que não ia por nomes nem exigir nada, eu só acho que foi um péssimo serviço distribuído por três lojas e que é bom que melhore… é esse o objectivo da reclamação, fazer com que se melhore.

5º ano
Foi preciso chegar ao 5º ano para ouvir um professor dizer que, se avançarmos com o abaixo-assinado para o conselho pedagógico a denunciar o exame que ele fez, "com 5 ou 6 telefonemas vocês não fazem mais nada da vossa vida!". (O abaixo-assinado circula na minha pasta e as assinaturas continuam.)

Foi também preciso chegar ao 5º ano para ouvir um outro professor a dizer que nas aulas falaremos de política, de cultura e de história. Foi preciso aqui chegar para nos dizerem que é importante que pessoas, com o grau de diferenciação que teremos, que se empenhem em ser presidentes de câmara ou de junta, que sejam reponsáveis por associações ou directores de um teatro. A janela abriu-se e soube bem respirar este ar fresco.
















Franck Follet, entre les lignes

20.3.06
A coragem
Dei por mim a pensar... conseguir arriscar sofrer as consequências de algo que fazemos para melhorar as coisas... há um certo esgar, apela-se à facilidade que seria ficar tudo assim ou inventam-se desculpas, cala-se (lembro a música do Chico)... mas... mas isso é que é a coragem, não é?

Fui ao dicionário:
o m. q cora; as cores do rosto (De corar + -agem)
energia morar ante o perigo, sofrimento ou revés; intrepidez; ousadia; perserverança; ânimo! (Do la. coraticum, deriv de cor. pelo prov coratge, «id.» ou fr. courage, «id.»)

Deixo-nos o desafio.

17.3.06
a muralha
Descemos do autocarro. Os dois com os olhos no chão. Chovia e tentávamos proteger a cara. Ele à minha frente. Eu atrás. Uma fila de duas pessoas. Eu carregava uma mala horrível (daquelas que nos fazem maldizer o dia) e ele transportava as suas costas, já curvas. Só lhe vi as costas quando parou. A fila de duas pessoas parou. Entre a parede e a estrada. Fiquei em quadrado com o velho à frente e a mala atrás. Parou muito parado. Chovia muito picado. E eu tentei ver o que fazia aquele ocasional companheiro de jornada. Espreitei, espreitei. Molhava-me e a paciência ameaçava explodir. Detrás daquela muralha corcunda, agora mais corcunda ainda por via da invisível tarefa, surgiu um chapéu-de-chuva aberto. Seguiu viagem. A fila andou. Eu fui pela chuva um pouco molhada mais, mas divertida.

12.3.06
adorei
"Não há dúvida que há gente no mundo que existe para que haja de tudo."

carlos ruiz zafón
(frase perdida num livro)

Bookcrossing
Citando o site português: "O Bookcrossing é um clube de livros global, que atravessa o tempo e o espaço. É um grupo de leitura que não conhece limites geográficos. Os seus membros gostam tanto de livros que não se importam de se separar deles, libertando-os, para que possam ser encontrados por outros.

Os 3 "R" do Bookcrossing:

Read: LÊ um bom livro
Register: REGISTA-O. Cria um diário para esse livro, dá-lhe um número de identificação (BCID) e cola-lhe uma etiqueta
Release: LIBERTA-O para que outra pessoa o possa ler (entrega-o a um amigo, deixa-o num banco do jardim, esquece-te dele num café) e recebe uma notificação por email cada vez que alguém encontra o livro e escreve uma mensagem no seu diário."

Cada vez mais sou a favor da circulação dos livros, a verdade é que são caros, e quando os partilhamos aproximamo-nos das pessoas. Assim deixo aqui as etiquetas (na net existem muitas mais, estas foram um pouco alteradas por mim) para que possam participar também. A primeira etiqueta cola-se na capa, a segunda cola-se por dentro.



Nada disto precisa de ser tão oficial, podem sempre só: encontrar, ler, libertar.
Podem procurar + informações no site www.bookcrossing.com.
Vejam aqui "Crossing zones" oficiais em Portugal

8.3.06
O Pisca
Entram numa rotunda. Fazem pisca para a esquerda e vão ali muito direitinhos. Depois saem na saída que lhes entende e não desfazem nem trocam o pisca.

Fico furiosa. A suposta comunicação do que se faz e do que se quer depois contrariada pelo que se faz efectivamente. Detesto que se diga isto é importante para mim, eu quero isto para a minha vida ou para os meus dias, eu vou fazer isto ou aquilo, eu não ligo a isso… e depois, na hora do confronto com as práticas imediatas (a longo prazo é outra questão) é tudo ao contrário, é tudo atropelado por um languido comodismo, pela “falta de tempo” ou pela falta de coragem.
Prefiro então quem não faz piscas de todo. Assim não se espera nada e tudo será sempre imprevisível. Nessa pessoa ficarei atenta mas não desiludida… não incorrerei em choques, amolgadelas ou irritações. Até pode haver boas surpresas.
Eu por mim, continuo a fazer piscas. Gosto que saibam quem sou e para onde quero seguir. Só quando estou mais tontinha é que escolho de todo não fazer piscas, e aí sabe bem.

Redescobrir a Cidadania: contributos para a mudança
IX JUC

6.3.06
Admirável mundo
Nem sei explicar porquê a imagem dela vibrante de entusiasmo voltou ao meu pensamento. Ela andava de um lado para o outro da sala, muito segura do que nos estava a ensinar, ainda que essa função, para ela, não parecesse a mais relevante. Ela estava a falar de funções nervosas superiores como a linguagem, a memória, o comportamento, a orientação, etc.
Eu olhava esperando um dia dominar assim algum conhecimento. Ser capaz de o virar de trás para a frente, desafiá-lo em todas as perspectivas, dar exemplos, ser útil, mesmo útil nesse meu conhecimento.
E no entanto a aula tratava do cérebro, essa caixa branca de mistérios e incompreensões. Estranho órgão que só deixa adivinhar a sua espectacularidade quando, infelizmente, algo falha. Durante muito tempo só pelos exemplos das falhas nos fomos conseguindo aproximar de algum entendimento do seu funcionamento normal (digo, fabuloso).

A LINGUAGEM é qualquer coisa de incrível. Está quase sempre no hemisfério esquerdo e vê-se por marcadores coloridos que se destacam (vê-se no computador) quando a pessoa fala dizendo “pão, arroz, massa”. Uma pequena lesão pode colocar uma pessoa a falar, falar, falar e não se perceber uma palavra. Ou então fala só com expressões coloquiais como “ora essa” ou “pois então”. A escrever também é incompreensível. A pessoa tem o código e sabe o que quer dizer, apenas não o consegue vocalizar. Uma lesão noutro local faz com que a pessoa quase não fale, e quando fala o discurso é agramatical: “Cadeira. Olhe. Olhe. Cadeira.”

A AUDIÇÃO
Hemisfério Esquerdo: cálculo, música, os códigos.
Hemisfério Direito: ruídos, melodias.

Lesão do lado esquerdo dá surdez verbal: deixam de entender o código da linguagem... é o taxista que percebe tudo o que dá no rádio menos o noticiário!

A VISÃO
Numa lesão bilateral do córtex visual (a pessoa deixa de ver, porque embora os olhos estejam bons o cérebro não recebe nenhuma da sua informação) e não saber, não ter noção que não vê… Então perguntamos: “diga como é que eu sou” e a pessoa responde “nem alta nem baixa, o cabelo é assim-assim, nem gorda nem magra”. As outras pessoas podem não dar facilmente pelo erro.

Chama-se anosagnosia (ausência de conhecimento da doença) e pode acontecer quando a pessoa vê mas perdeu a capacidade de reconhecer as funções dos objectos… então pode descrever uma caneta como “É uma coisinha. Um pausinho.” E não sabe como utilizá-lo. Mas nunca diz “Não sei!”. Pode também ignorar um lado inteiro do corpo… e da vida… se a lesão os faz ignorar o lado esquerdo do corpo só falarão para a direita, só comerão o lado direito do prato, só copiarão o lado direito de um desenho.

A ESTRATÉGIA
O lobo frontal é o lobo das estratégias, é formal, é de inteligência. É o lobo dos matemáticos. O plano a definir pode ser o de como conquistar alguém, por exemplo. Inibe os erros. Uma pessoa com uma lesão aqui deixa de ter iniciativa para se levantar e ir tomar café. Quando tem uma iniciativa normalmente dá mau resultado, é por impulso, é primeira ideia. Comete sempre os mesmos erros. São desinibidos, não têm crítica social, são impulsivos (e ao mesmo tempo apáticos), infantis (este lobo, curiosamente, só termina maturação aos 18 anos).

uma_imagem_gira
Finbarr O'Reilly, Canada, Reuters.
Mother and child at emergency feeding center, Tahoua, Niger, 1 August

(Porque será que na barriga da mãe 80% das vezes a mão que está na boca é a direita? Se até aos 3 anos as crianças não têm lateralidade? - eles ainda não são dextros nem canhotos)

Com este post deixo apenas ideias soltas e pouco “cientificamente” elaboradas ou infalíveis. Gostava só que pensassem, como é incrível a forma como algumas pessoas vivem. Muitas delas apenas algum tempo, outras para sempre mas aprendendo a viver com a sua novidade. Especialmente gostava que pensassem como o nosso funcionamento no dia a dia está dependente de uma estrutura tão admirável. PORQUE CUIDAMOS DAQUILO QUE GOSTAMOS
.

1.3.06
ser dono do seu tempo
«Olhava à sua volta e via as pessoas a lutarem contra o tempo. Todas a queixarem-se de que não tinham tempo. E tantas, tantas, milhares, milhões a serem escravos do tempo, o tempo a escorrer sobre elas, a devorar-lhes tudo, a esvaziar-lhes a vida de sentido e sonho. Dedicava-se então a encontrar novas formas de trabalho. Mas o trabalho se, para a grande maioria tinha de ser aguentado como condição de subsistência, para as classes dominantes (do ter, do poder e do saber) tornara-se uma aplicação acrítica da ideologia do "sempre mais". E aí encontrava uma servidão que, sabia-o pelo fatalismo do mimetismo sociológico, se iria propagar e alastrar até às camadas mais destituídas de sociedade. Revoltava-se e procurava saídas, conceptuais e práticas. Defendia então ferozmente o direito de cada um "ser dono do seu tempo", o que equivalia a cada um ser "dono do seu trabalho".»

Maria de Lurdes Pintasilgo, in "Palavras Dadas".



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