9.2.06
"what will bring us together?" ou "como viver com o outro na cidade?"
Os Smiths diziam que "If it's not Love / then it's the Bomb / that will bring us together", frase lembrada pelo Carlos Cunha, a propósito das confusões com os cartoons de Maomé. De facto, anda toda a gente muito susceptível. À parte a discussão evidente sobre liberdade e responsabilidade, os disparates do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o pensamento duvidosamente honesto (ou honestamente duvidoso) de Vasco Rato no "Prós e Contras", há uma questão que assusta e outra que se impõe.
O que assusta é continuarmos a assistir à lógica da violência gratuita. À normalização da violência e da guerra nas suas formas diversas, sobretudo ideologicamente. A guerra entranha-se na nossa maneira de ler o mundo. E isso assusta.
A questão que se impõe, é precisamente o que é que conseguirá criar laços entre nós. "What will bring us together?". O Miguel lembra que que é hora de "estender os braços, não esconder os rostos e dizer que à guerra preferimos outra coisa". D. Manuel Clemente, também no "Prós e Contras", lembrava que a liberdade, a responsabilidade, o respeito mútuo, a tolerância, foram conquistas da história Europeia. Conquistas duras, que custaram muitas vidas, mas que fazem parte de um património que não devemos desbaratar e que devemos partilhar com outros povos. E falava ainda doutra conquista ocidental: a da cidadania, associada à da laicidade. A pertença a uma comunidade e o direito de participação de todos, independentemente das suas crenças, valores, estilos de vida.
Fátima Campos Ferreira pergunta ao bispo e ao imã da Msquita de Lisboa se reconhecem que a cidadania e a vida político-social estão num plano diferente da crença religiosa. No fundo perguntava-lhes se aceitam a condição da laicidade -- a "autonomia das realidades temporais", em linguagem eclesiástica. A resposta evidentemente afirmativa veio de seguida. O desafio é precisamente esse -- laicidade: viver com o outro na cidade. Encontrar plataformas comuns para que gente diferente possa viver em conjunto.
O Islão está ainda a percorrer o caminho de descoberta da laicidade. Como lembrou o Sheik Munir, a religião do Profeta tem menos 600 anos que o cristianismo. Por isso mesmo, Timothy Garton Ash tem razão quando diz que o ocidente não deve encarar esta polémica como Islão contra o Ocidente (que é precisamente o que os líderes políticos duvidosos de vários países do oriente pretendem), mas encará-la antes como um confronto entre os defensores da razão e do diálogo e os defensores do ódio. E nesse confronto, diz ele, os meios serão mais importantes que os fins. Os meios que escolhermos determinarão os fins onde chegaremos. A guerra só nos levará à guerra. Por isso isto não é uma guerra que o ocidente vá vencer ou perder. É uma discussão dentro do Islão (e por isso também dentro da Europa):

«If reason prevails over hate, it will be because most British, French, German, Spanish, Italian, Dutch, Danish and altogether European Muslims prevail over their own extremist minorities. We non-Muslim Europeans can contribute to that outcome, by our policies abroad, towards Iraq, Iran, Israel and Palestine, and at home, on immigration, education, jobs and so forth. We can also contribute by cultural sensitivity and self-restraint, but we cannot compromise on the essentials of a free society.»



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