28.2.06
Literatura e humor
Nas minhas mais recentes sebentas tenho-me surpreendido com a ansiada entrada da LITERATURA no meu estudo.

Chovia. A água repicava de encontro ao zinco que forrava até a meio da porta que ficaria depois cheia de entalhaduras a canivete, marca e presságio da futura estatura de todas as crianças da família que ali se mediam aos dois anos.
Há-de crescer o dobro desta altura – diziam. E lá ficava na porta a linha que profetizava o tamanho de cada uma dessas crianças, que, vinte anos depois, iriam apoiar a cabeça naquela porta toda lanhada pelo tempo, e rir, com jubiloso pasmo, da precisão do cálculo antecipado
.”

...........................................................................Agustina Bessa-Luís. A SIBILA. Guimarães editores, Lisboa 1953

Ria sozinho: o puto chamara-lhe Encristado. Como era baixote, quando garoto, e houvesse tomado o jeito de se entesar para aumentar a estatura, tinham-lhe prantado aquele nome. Depois, dos quinze para os dezassete, deitara corpo. Mas o apelido ficara.”

........................................................Urbano Tavares Rodrigues, ESTÓRIAS ALENTEJANAS, Edit. Caminho, Lisboa 1977

Esta sebenta continua com longos textos de Aquilino Ribeiro e outros, a terminar os capítulos (que como ainda não cheguei lá ainda não li, nunca leio o final das histórias antes do tempo.)
Numa outra sebenta... No meu estudo também entrou o HUMOR:

As boas explicações como os bons bikinis, devem ser pequenas, chamativas e cobrir as áreas essenciais.” ..........Brown, 1978

27.2.06
pasmo
Por vezes vêm ter connosco histórias que não vivemos e que não ouvimos a quem a viveu.
Sabia, no entanto, quem a tinha contado e gostei de a ouvir.
Era um padre missionário, português em Moçambique. Ainda muito jovem. Estava em casa desbaratinado, enervado, em reboliço com as coisas que havia a fazer, com o tempo que lhe fugia.
Chegou à porta, disparado, pronto a sair. Viu um pequeno sentado nos degraus da casa (que eu imagino branca e simples). Perguntou-lhe:

"- Que estás a fazer?"
O miúdo respondeu:
"- Estou só a ficá."

Uma delícia dita por um pretinho que devia ser uma maravilha de conhecer.

24.2.06
microcosmos
“As cidades universitárias são uma espécie de microcosmos em que não se vive uma vida bem real…”
Ela começou a falar assim. Disse mais uma frase e o assunto acabou. Era uma crítica.
Uns dias mais tarde outras pessoas disseram que aqui nunca se passa nada.
Uma outra rapariga disse… “sabias que o (…) agora passa cinema?”
Um dia alguém disse que estava a morar já fora da cidade de tão longe que ficava.
Esta ideia de cidade universitária nunca me agradou. Menos ainda quando cheguei à universidade, na cidade onde sempre vivi. Porque para mim esta cidade nunca foi a universidade.
Mas sei que assim é para muitos que aqui chegam vindos de fora. Como se toda ela girasse à volta daquela torre. Como se todos aqui os esperassem e os acolhessem. Como se um mundo todo novo e preparado aqui estivesse.
Mas os anos passam. O círculo em vez de alargar parece que só encolhe. Muita gente passa aqui 5 anos da sua vida e tudo o que se afasta do círculo da universidade é demasiado longe, todos os locais que não se conhecem nos jantares de curso ou nas primeiras noitadas não se chegam a conhecer, os jardins maiores, os locais junto ao rio, os cafés onde se pode beber todos os tipos de chá, os caminhos a pé, as livrarias, os restaurantes mais aconchegados não se descobrem… É como se as antigas muralhas ainda ali se elevasse.
Para estas pessoas nunca se passa nada nesta cidade. Não há oferta nenhuma. Mas as salas de teatro estão vazias sempre, o cinema (que não Lusomundo) está vazio sempre (e aquele local passa cinema desde há mais de 30 anos), os lugares mais bonitos estão sem ninguém. E aquele longe, fora da cidade, fica a 5 minutos de autocarro do centro. E quase todas estas pessoas têm carro próprio. E dinheiro, bastante dinheiro para poderem gastar com estas coisas. A frase é sempre “eu não sou de cá…” Como não fazer por se conhecer a cidade onde se vive? Será que é porque se pode adiar?
E aí tenho de concordar que se torna um microcosmos… talvez para sempre recordado com saudade… ainda por cima!

(nota posterior: reconheço as devidas injustiças deste texto)

23.2.06
newsletter



















(carregar em cima da imagem para ela aparecer maior)


Para saberem mais sobre esta revista e este número procurem em: página do Comtextos ou escrevam-nos para: comtextos@gmail.com

Os 5 números anteriores:

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21.2.06
(entre duas margens)
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"Vivemos (desde sempre?) uma situação em que a morte
se instala de graça e o curso dos dias suscita
o humor: a arriscada e soberana maneira de aprender
a rir de si mesmo, um si mesmo alargado a tudo o que
nos implica no desconcerto e no medo. Essa uma das
margens. A poesia a outra. A ponte o exercício de estar vivo."

Luanda, Janeiro de 1994
(in Ordem de esquecimento, 1997)
Ruy Duarte de Carvalho



Leio outra vez. Devagar. Bem devagar.
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Guardo em mim... esperando não esquecer.

19.2.06
enquadramento essencial

Ridículo
Há uma coisa que eu sempre detestei que é as profissões (as pessoas que as representam) perderem tempo a dizer mal umas das outras. Não tenho a menor paciência. Sempre achei muito mais útil olhar para os próprios desempenhos do que para os desempenhos alheios.
Acontece muito por complexo de inferioridade. (Porque os que se acham superiores nem se lembram que os outros existem... o que também é muito mau quando o que se quer é trabalhar em equipa). Outras vezes é porque rivalizam competências...
O mais incrível é que se fazem depois escalas em que cada um diz mal de quem pode.
Assiste-se às coisas mais ridículas.

16.2.06
"Mergulho em Mim -- lugares que nos habitam"
«Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma.» (Clarice Lispector)

«(...) Existe muito ruído no tempo que temos para sermos apenas connosco. Músicas mal ouvidas: sem atenção à letra. Cinema de distracção: sem um diálogo ou uma imagem que ecoe cá dentro. Um texto lido à pressa, sem nos questionar. Alguém que fala apaixonadamente, sem nada retermos (nada voltaremos a ter). Sento-me com a frase. Uma paisagem à minha frente e, sem querer,já não vejo a paisagem, ou oscilo entre me deliciar com ela e entrar em mim. Como numa estrada com curvas onde seguimos calados.
"Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa." (C. Lispector) Do que conhecemos de nós, para a estranha imagem ao espelho. E dessa pálida imagem, para nós novamente: cores vivas. Do corpo, onde já viajámos (e as viagens são sempre incompletas) para nós, para essa primeira qualidade que só encontramos nos nossos silêncios povoados. Silêncios povoados das nossas palavras, dos nossos tempos, dos nossos trilhos invisíveis. Essa outra qualidade que nunca encontramos, nunca nos pertence em pleno, além do conhecido. TEMPO PESSOAL.»
Começa assim o novo número (o 44!) da revista "comtextos". O editorial assinado pela Inês é claro na proposta: descobrir o inefável que transportamos em nós. O tempo pessoal: o mais fundo de nós próprios, o nosso crescimento, as nossas memórias, os nossos tempos e contra-tempos, os que nos são mais queridos. Nós.
Ainda não li, mas estou ansioso. Só preciso de arranjar um bocadinho de tempo...

15.2.06
descobrir
Do outro lado da mesa, aquela cara muito escura chamou o meu nome. Logo olhei reconhecendo a sua voz. Aquela cara muito escura e dentes muito brancos parou um pouco e só depois disse "Inês, estava à espera que fizesses perguntas hoje". Ele estava dizer-me que achava que eu tinha perguntas para ter feito ao nosso convidado daquela noite. Olhei para ele e disse-lhe que naquele dia não estava com vontade de fazer perguntas, só me tinha apetecido ouvir.
E achei que a resposta era suficiente. Mas ele continuou a olhar para mim. E repetiu a frase, repetindo o meu nome. E eu sorri-lhe (porque as pessoas que me conhecem numa altura de perguntas ficam à espera que eu seja sempre assim). E olhei para o outro lado, pronta para voltar à conversa onde tinha estado... Mas voltei a espreitar aquele rapaz de palmas de mãos muito claras e voz quente. E ele continuava a olhar para mim. Esperando. Parecia.
Suspirei porque na minha aceleração me "irritou" um pouco aquela calma toda (e também a pergunta que me deixava à toa). E foi aí que um gelo me caiu em cima. Foi aí que percebi, só aí, que em S. Tomé vou ter de despir esta velocidade.

13.2.06
Ritmos III
No carro ela disse… “está a começar a cheirar mal”. Ninguém comentou. Segundos depois, lá à frente ele disse “está a cheirar muito mal”. Finalmente as outras duas disseram “Ui que cheiro”. Eu fiquei calada na minha eterna condição de “sem olfacto”.
O pneu estava a começar a arder e eu fiquei, como sempre, a pensar… realmente há um universo que eu não conheço. (é uma certa característica minha, com que se brinca, que se estranha e questiona. Que se esquece e eu lembro fingindo-me indignada. Com sardas o meu nariz não serve para nada.)

(post de rompante 3)

Ritmos II
Eles não queriam muito ir passear. Estava um espectacular dia de sol e isso era motivo para elas querem ir passear de carro. Para eles era um bom motivo para nada fazer, ficar apenas “esparralhados” ao sol sem sequer pensar.
Olhei para eles e pensei… num outro dia, que não este, podia ser eu ali sentada no sofá a dizer exactamente estas preguiçosas palavras e defender convictamente que era dia de ficar no jardim!

(post de rompante 2)

Ritmos I
Estranho as pancas que cada pessoa tem para cozinhar. Defendemos com o coração as nossas heranças e nem sabemos porque o fazemos de facto.
Os tempos, os modos, os truques.

(post de rompante 1)

impulso
Dois impulsos no mesmo dia. Sair de casa a correr… não querer chegar fora de tempo.
Um impulso e parece que estiveram a falar sobre nós, para nós. A grande audiência ouve em silêncio. E ninguém reparou que alguém quase chorava.
Voltar a casa. E uma vontade irresistível de cinema. Mas tinha de ser um bom filme e a sala tinha de estar vazia. 10 minutos para lá chegar e decidir que sim.
Sala vazia. Tudo vazio. Brokeback Mountain numa fila bem à frente, para entrar no filme. E valeu a pena. Como diz o realizador Ang Lee (chamava logo a atenção pelo Tigre e o Dragão): "As pessoas falam sobre uma história "gay" mas não acho que devam considerar essa a parte mais importante do filme. Não creio que alguma vez tenha feito uma história romântica de amor e por isso esta é muito especial.” E é mesmo.

uma_imagem_gira
escolhi um imagem em Brokeback

12.2.06
"à Liberdade - que é sempre demasiado pouca" *
O homem pensa, Deus ri.

9.2.06
um caminho
Hoje estava perdida algures nos meus pensamentos e lembrei-me de um caminho.
Um caminho que me levava da escola para casa. Um caminho feito a pé naquele dia. E lembro-me de ser pequena, bastante pequena com uma mochila pesada, e de ir a saltitar do passeio para a estrada e da estrada para o passeio, junto ao parque infantil-ruína. Lembro-me exactamente da curva onde ia a pensar como o racismo era uma coisa má. (não sei porque pensaria naquilo nesse dia). E nesse caminho decidi algo... era importante que soubessem que eu não era racista. E então a partir desse dia iria sorrir a todas as pessoas negras pelas quais passasse. Cheguei a fazê-lo. Poucas vezes mas por não os encontrar. Não devem ter achado estranho uma miúda a sorrir.
Mas chegou outro dia, penso que no mesmo caminho mas não me lembro onde, dei-me conta que aquilo também era uma forma de os tornar diferentes. E parei.

Ri-me desta lembrança.

"what will bring us together?" ou "como viver com o outro na cidade?"
Os Smiths diziam que "If it's not Love / then it's the Bomb / that will bring us together", frase lembrada pelo Carlos Cunha, a propósito das confusões com os cartoons de Maomé. De facto, anda toda a gente muito susceptível. À parte a discussão evidente sobre liberdade e responsabilidade, os disparates do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o pensamento duvidosamente honesto (ou honestamente duvidoso) de Vasco Rato no "Prós e Contras", há uma questão que assusta e outra que se impõe.
O que assusta é continuarmos a assistir à lógica da violência gratuita. À normalização da violência e da guerra nas suas formas diversas, sobretudo ideologicamente. A guerra entranha-se na nossa maneira de ler o mundo. E isso assusta.
A questão que se impõe, é precisamente o que é que conseguirá criar laços entre nós. "What will bring us together?". O Miguel lembra que que é hora de "estender os braços, não esconder os rostos e dizer que à guerra preferimos outra coisa". D. Manuel Clemente, também no "Prós e Contras", lembrava que a liberdade, a responsabilidade, o respeito mútuo, a tolerância, foram conquistas da história Europeia. Conquistas duras, que custaram muitas vidas, mas que fazem parte de um património que não devemos desbaratar e que devemos partilhar com outros povos. E falava ainda doutra conquista ocidental: a da cidadania, associada à da laicidade. A pertença a uma comunidade e o direito de participação de todos, independentemente das suas crenças, valores, estilos de vida.
Fátima Campos Ferreira pergunta ao bispo e ao imã da Msquita de Lisboa se reconhecem que a cidadania e a vida político-social estão num plano diferente da crença religiosa. No fundo perguntava-lhes se aceitam a condição da laicidade -- a "autonomia das realidades temporais", em linguagem eclesiástica. A resposta evidentemente afirmativa veio de seguida. O desafio é precisamente esse -- laicidade: viver com o outro na cidade. Encontrar plataformas comuns para que gente diferente possa viver em conjunto.
O Islão está ainda a percorrer o caminho de descoberta da laicidade. Como lembrou o Sheik Munir, a religião do Profeta tem menos 600 anos que o cristianismo. Por isso mesmo, Timothy Garton Ash tem razão quando diz que o ocidente não deve encarar esta polémica como Islão contra o Ocidente (que é precisamente o que os líderes políticos duvidosos de vários países do oriente pretendem), mas encará-la antes como um confronto entre os defensores da razão e do diálogo e os defensores do ódio. E nesse confronto, diz ele, os meios serão mais importantes que os fins. Os meios que escolhermos determinarão os fins onde chegaremos. A guerra só nos levará à guerra. Por isso isto não é uma guerra que o ocidente vá vencer ou perder. É uma discussão dentro do Islão (e por isso também dentro da Europa):

«If reason prevails over hate, it will be because most British, French, German, Spanish, Italian, Dutch, Danish and altogether European Muslims prevail over their own extremist minorities. We non-Muslim Europeans can contribute to that outcome, by our policies abroad, towards Iraq, Iran, Israel and Palestine, and at home, on immigration, education, jobs and so forth. We can also contribute by cultural sensitivity and self-restraint, but we cannot compromise on the essentials of a free society.»

"Aniversário"
Ontem festejámos o dia de anos da Rita.
Não foi fácil para mim cantar aqueles parabéns-a-você. Lembro-me do poema que nos enviou num dos seus convites de aniversário. O "Aniversário" de Álvaro de Campos.
Lembrá-lo não deixa de ser um pouco triste. Hoje a Rita não está aqui. Hoje somos nós que dizemos que no tempo dos seus aniversários "a alegria de todos, e a (sua), estavam certas com uma religião qualquer". Porém, cantámos mesmo os parabéns. Para encurtar distâncias: "o que só hoje sei que fui... / A que distância!... / (Nem o acho...) / O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!".
Voltámos a festejar o dia de anos da Rita. Com uma certa "raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira". Com um evidente "desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez".
Ao mesmo tempo sinto que "vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...". A passagem da Rita ensinou-me a encarar as coisa com um horizonte diferente. Com uma nitidez diferente. Como se tivessemos ganho um pouco do seu olhar de sensibilidade e atenção, da sua maneira de rir de tudo, da sua mania de ter esperanças mesmo quando já não sabemos ter esperanças.
Disse e repito: incrível como ela continua a fazer parte das nossas vidas, não é?

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos, 15/10/1929

8.2.06
entrar nas casas
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Dei conta de uma certa forma que tenho de entrar nas casas.
Sabia que ao entrar numa casa "sem família", onde passaremos apenas uns dias, que rapidamente fico a saber a gaveta dos talheres, os locais das panelas, o sítio do papel higiénico, as janelas onde bate o sol, o local das cebolas e do azeite, onde se guardam os cobertores nos armários, que chaves abrem que portas, onde se colocaram os objectos. Sem esforço, acontece apenas. (talvez por isso perca a paciência quando me perguntam onde estão as coisas antes de procurar).
Mas nas últimas semanas não foi sem alguma vergonha que me apercebi que facilmente me encontro a abrir os frigoríficos das casas habitadas, a saber o local do pão, a limpar a banca da cozinha, a fazer torradas, a pesticar no queijo, a dormitar no sofá preguiçosamente. Foi com algum embaraço que percorri na minha memória as casas dos meus amigos e reconheci-me a fazer isso em todas elas. E nas casas que vou conhecendo agora, desde que acolhida, sou assim.
A verdade é que não gosto de ser uma estranha nas casas. (sempre gostei de entradas e escadas de serviço)

6.2.06
O Tempo e a escrita.
Acabei de fazer dois exames. 2 horas e meia. Duas cadeiras que fazem parte da mesma, ainda que uma trate de articulações/músculos e a outra de rins. Fazem parte da enorme cadeira Patologia Médica (com 4 cadeiras juntas o que equivale a 4 orais práticas e 4 exames escritos).
Além de toda esta lógica em que se cumprem as regras do máximo de cadeiras que podemos ter num ano (estas 4 só equivalem a 1 e na Patologia Cirúrgica é o mesmo) hoje o exame de nefrologia era impossível de resolver em 1h15min, feito com muita exigência e inteligência, avaliando bem o que nós sabemos, a parte de o demonstrar fica sacrificada pelo tempo que não temos para mostrar o que sabemos.
No exame de Reumatologia deu-me para falar alto, refilar, perguntar que exame era aquele… porque para além de ter chegado tarde (dando a entender que o estiveram a fazer na hora) estava escrito num misto de mau português, mau "brasileiro" e mau espanhol. As perguntas eram feitas com frases do género larachas que se ouvem nos autocarros, tinha citações de autores e não dizia o que devíamos fazer com elas (depois descobrimos perguntando que era Verdadeiros e Falsos sem mais, quando eu achei todas discutíveis...), perguntava os pormenores mais ridículos da matéria e nada de importante. No fim cinco linhas minúsculas, onde a minha letra não cabia (quem a conhece sabe que é bem pequena!), para responder em desenvolvimento. Fiz questão de responder apenas e somente nas linhas (apesar da página estar toda a branco por baixo). Dá-me raiva este tipo de exames. Há professores que não têm o menor respeito pela própria profissão.
Outros pecam porque não dão tempo para pensar, porque é a pensar que se aprende nos exames… e parece-me que os exames também servem para aprender.
Amanhã tenho uma oral que devia ter feito antes destes exames, é que se chumbar nela anulam-se os dois. Viva a pedagogia...

4.2.06
Consenso
Há uns dias soube que Maria de Lourdes Pintasilgo dizia não gostar do consenso.

Lembrei-me de imediato de dezenas de reuniões. Fosse numa sala fria no sótão de uma casa grande, casa de muitas correrias de jogos “mata” ou, também conhecido, “piolho” com um limão… Fosse junto ao rio enquanto todos os outros gozavam o tempo livre. Fosse numa roda grande com um tecto de estrelas ou dentro de uma tenda com os ouvidos e os corações à escuta (lá foram eles dormiam?). Reuniões de crescer e ver nevar lá fora, já depois das devidas corridas de mãos e nariz gelados. (Podia aqui lembrar as reuniões de alunos mas essas não são boas de lembrar aqui, nunca foram). Fosse nestas novas reuniões onde o que queremos é percorrer 4000km de distância para Sul… As várias reuniões onde já trabalhei, não uma nem outra vez, trabalho continuado, de conhecer as pessoas, de discutir muito com os amigos. Sair com vontade de chorar ou então no fim do nervosismo ir beber um copo!
Tantas reuniões e o que se procura sempre é o consenso. É esse o meu treino. Coordenar para que todos façamos o melhor. Preparar uma ordem de trabalhos para que tudo tenha ali lugar. Atenção para que todos possam participar. Exigência.
Depois lembrei… De como é horrível quando toda a gente aceita. Quando toda a gente diz sim a uma proposta… Quando sentimos que alguém foi o único a lembrar-se de algo e então todos concordam. Nem entusiasmo nem rebeldia. Nem garra nem valentia. Diz-se que sim.
Esse consenso é horrível. O consenso da Preguiça. É também horrível quando se desiste de argumentar. É o consenso da Exaustão.
Como muitas outras coisas só é bom quando envolve um pouco de perigo.

apetite
4 ovos;
200 g de açúcar;
150 g de chocolate de cobertura;
125 g de natas;
200 g de farinha de trigo;
1 cálice de rum;
margarina para untar a forma.

Parta o chocolate em pedacinhos para um tachinho e leve-o ao lume em banho-maria para derreter. Deite os ovos e o açúcar num recipiente e bata até obter um creme fofo e volumoso; junte-lhe e então o chocolate, em fio ou às colheradas e mexa com cuidado o batido, fazendo com que fique bem misturado mas sem bater. Seguidamente, e de igual modo, junte-lhes as natas e depois a farinha, esta deixando-a cair por entre os dedos e mexendo com cuidado. Por fim, adicione o rum. Unte abundantemente a forma ou formas, deite-lhe o preparado de modo a não ultrapassar 2/3 da altura, alise e leve a cozer em forno moderado, evitando abrir a porta do forno nos primeiros 25 ou 30 m. O tempo de cozedura ronda os 40 ou 50 m. mas convém sempre verificar com uma agulha. Depois retire do forno, deixe arrefecer um pouco e desenforme.
"

Eu estava a estudar e a meio da tarde deu-me este apetite.
Com uma mensagem os ingredientes foram encomendados.
Chegada a casa fiz o bolo.
À noite soube bem oferecê-lo a um amigo de visita, com chá a acompanhar.
Volto ao estudo... manta, bota eléctrica e poncho.

1.2.06
Terra da Alegria
A Terra da Alegria está renovada. A minha colaboração continua fraca, mas hoje posso dizer que está lá qualquer coisa da minha lavra: Redescobrir a Cidadania nos dias de hoje.



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