12.1.06
Gentes de Marrocos SEIS



Uma senhora velhinha lia a mão e deitava as cartas a um senhor de meia idade, muito pertos um do outro e com ar compenetrado. Resolvi que também queria. Primeiro problema, não falava francês: levantou-se e chamou uma amiga, eram pelos menos seis só naquela zona. Enfiei o barrete. Segundo problema, o regatear era feito pensando que elas eram duas: a intérprete e a leitora. Lá chegámos a um preço. Pegou-me na mão, fez-me partir o baralho em três partes, e levá-la à minha testa; depois teve-a sempre segura junto a si. Começou num francês veloz: vais ter uma óptima vida, um óptimo emprego com muito dinheiro, não vai ter doenças nem mortes próximos, vais ter óptima saúde, vais encontrar uma mulher linda para casar, com amor (e levava a mão ao coração dela), etc, etc e depois repetia à mesma velocidade com uma ordem pouco variada. A leitora nunca mais falou e ria-se porque eu me ria muito também, afinal de contas o barrete afundava-se.

Foi das poucas situações em que pude "falar" (não conversar, isso nem pensar) com uma mulher. As outras foram a mulher das limpezas do hotel que queria limpar o quarto; uma senhora, entre as muitas, que queria pintar as mãos de uma amiga à imagem das noivas - fez uma grande confusão em plena praça, nós não queríamos pagar o preço exagerado que pedia e que não fora combinado anteriormente, ela não queria ceder. Acabámos por pagar-lhe com medo das consequências em praça pública - para além destas, apenas senhoras que nos vinham pedir dinheiro na rua, normalmente idosas. Só de si é estranho conseguir contar pelos dedos o número de mulheres (não estrangeiras) com quem falei em sete dias em Marrocos.




É um mundo de homens. A resolução de problemas pela força é uma forma de resolução. Os problemas das mulheres são resolvidos por eles também. Elas não têm voz, nem rosto, só olhos que se desviam. O espaço público não é delas, só o atravessam silenciosas e em grupos de duas, três, sozinhas ou com os maridos. Não olham para nós, nós aprendemos a não olhar para elas e quando chegamos a um café em Lisboa ainda vimos assim (mal) habituados.

Aprendem a viver assim, escondidas no mundo delas, cúmplices umas das outras, fortemente cúmplices. Mesmo nessa cumplicidade não devem poder jogar tudo, muito deve ser guardado para elas. Serão barris de pólvora mental insuportáveis ou acreditarão naquele mundo que é o que conhecem e, portanto, o certo?



HaloScan.com