7.1.06
Gentes de Marrocos QUATRO



Regatear é para os marroquinos uma regra do comércio. Por ali aprendem a argumentar e a "fintar" o outro. Eles levam muito a sério o negócio, como raramente cá vejo fazer: vão à rua buscar as pessoas, convidar para entrar e ver. Argumentam, explicam, convencem nem que seja pela piada que muitos têm na sua argumentação. E vão ganhando confiança através do processo de venda, perguntar um preço só por curiosidade pode ser um engano grave, a partir daí entra-se num jogo que desistir de jogar pode deixá-los ofendidos.

Habituarmo-nos a essa regra não é tão óbvio como se possa pensar, aprendemos já para o fim da viagem que o truque é oferecer um terço do preço que eles propõem com a intenção de no fim pagarmos metade. Obviamente que enquanto turistas pagaremos sempre mais que um marroquino pelo mesmo produto.

Com os estrangeiros será o nível mais básico e em que a simpatia terá mais papel enquanto "namoro". Um marroquino aprende desde pequeno a funcionar neste jogo e fá-lo com uma habilidade admirável, vimos muitos pequenos a trabalhar, a vender, a convencerem-nos a levá-los como guias. Pergunto-me se não será até uma forma de competitividade masculina, de demonstração de virilidade?

Normalmente funcionava assim, pergunta deles: "Français? Espagnol? Italien?"
Resposta nossa: "Português!"
Começo de namoro: "Ah, portugais... Bom dia... Obrigado... Figô... Nuno Gômes... Soyez bienvenus à Marrakesh, mon Ami!"

Encontrei por lá alguns mestres da sedução que fariam furor no marketing e economia ocidental. Conseguem vender tudo e são muito persistentes. Dentro deste jogo somos sempre o estrangeiro, "o turista", e a sensação que fica é que, mesmo no mais pobre dos negócios, somos sempre, por pouco que seja, enganados. Nunca "roubados" mas sempre "desarmados".



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