3.1.06
Calor na serra
Aquelas mãos. Mulher. Outras mãos. Homem.
Recolheram o leite das cabras, ele. Das ovelhas, ela.
Cedo, ainda o sol não aparece atrás das montanhas ali à frente.
O frio lá fora é cortante, completamente impossível abrir a boca e por ela respirar… o ar gelado entra para dentro e parece não ir embora nunca.
Umas horas depois, quando ele sai para guardar o gado pelos campos, o dia inteiro, parado, numa sabedoria intrigante, ela entra em casa. Encontra-nos expectantes.
Iria ensinar-nos a fazer queijo da serra. Muito curvada, numa flexibilidade só possível a quem passa a vida inteira acocorada ela começa a explicar. O Cardo, a mistura dos leites, o coalhar. Depois senta-se num banco muito baixo e começa a recolher da panela do leite o que seria o seu queijo. Aperta-o, enterra as mãos nele, vai fechando o arco que o segurará, aperta mais um pouco. Feliz ela estava por nós ali estarmos, todos quase crianças para ela, todos olhos postos naquelas mãos, naquele lume ali muito perto. Todos ouvidos atentos à história do queijo e do requeijão, mas sobretudo à história da sua vida.



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