25.12.05
Bons nascimentos
Utilizei este ano (embora provavelmente me tenha lembrado dela nos anos passados) a expressão "bons nascimentos" (sempre por escrito) como substituta do habitual "bom natal". A expressão "bons nascimentos" serve para desacomodar o "bom natal" e se entenda que "natal" significa "nascimento": assim como quem lê a letra de uma música que já ouviu vezes sem conta e encontra nela novas "chaves". "Bons nascimentos" faz sentido para o Natal como para um ano novo, dia a dia.

Dizer "bom natal" sabe-me bem. Aos amigos, às pessoas nas lojas, com desconhecidos, onde quer que seja, tenho profunda consciência e agrado de que é forte o que estou a oferecer quando o digo. Digo-o com as letras todas e seguro, criando pontes naives (ou talvez não) para as pessoas a quem me dirijo.

Nascer implica um desejo, um projectar de vida, mesmo quando o que nasce não são pessoas mas sonhos e projectos. Qualquer coisa de esperança (embora não me agrade a palavra), de promessa, de utopia enquanto objectivo a prosseguir. Esses desejos dão trabalho, como viver segundo o que acreditamos dá trabalho nem que seja porque é muito fácil sermos assediados (e não falo nem em tentações, nem em pecado, nem em nada de diabólico) para outras vidas que não a nossa em que acreditámos, sabendo ou intuindo; ou porque nos distraímos, felizmente, muitas vezes do que somos. Fica uma achega de Eça de Queiroz n'Os Maias sobre desejar para me ajudar nesta explicação:

«Falhámos a vida, menino!
-Creio que sim... mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: “vou ser assim, porque a beleza está em ser assim.” E nunca se é assim. É-se invariavelmente "assado", como dizia o pobre marquês. Ás vezes melhor, mas sempre diferente.»

Dentro desta "imaginação" ou "desejo" de futuro cabe donde viemos. E o natal é uma festa da família (enquanto conjunto de pessoas de que gostamos, a que nos unimos) e é sempre na família que se nasce e onde normalmente se morre. Um ninho onde nos aconchegamos em posição fetal. Ao fim da noite, num abraço, uma mãe diz sussurrante "nós desejámos ter-te e é muito bom que tenhas nascido". Compreende-se então que somos pequeninos em muita coisa mas incrivelmente enormes por cá existirmos em contínuos (re)nascimentos...

Bons nascimentos!



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