13.12.05
Apontamentos de viver com pessoas.
A viagem tinha sido longa, muito longa.
Um dia alguém me disse que as crianças, quando se sentem viajar durante muitas horas, muita estrada passar, ficam com a sensação que estão demasiado longe, duvidam talvez que possam voltar.
Aconteceu-me sentir-me muito longe, muito longe de tudo. No entanto, soube bem.
A viagem tinha sido longa. Com tempos de cantoria, de “chega para lá o teu pé, já não sinto o meu de tão esmagado”, alguns uivos de brincadeira, muito tempo de silêncio. Entre as curvas e contra-curvas daqueles dias pensei várias vezes que, conforme as idades, fazemos viagens diferentes. Os silêncios são diferentes conforme as idades, conforme o que vivemos em cada altura. E é bom reconhecer um pouco, nos silêncios dos outros, o que estarão a pensar. Ou não.

Chegar a uma casa desconhecida. Um está maravilhado, “a varanda é espectacular! Está tudo arranjado”. Outro faz um ar desiludido, não era nada daquilo que imaginava… não era pitoresca, não era típica... Ela olha para a lareira e falta-lhe um sofá, como estar à lareira sem sofá? O quarto: calado, não se preocupa, faz parte dele ser assim. A dos caracóis abre tudo, começa a dizer que vamos mudar tudo de sítio, trazer um colchão do andar de baixo para sofá, trocar a mesa de lado e posição, esconder a lenha e os paninhos foleiros “vamos tornar isto na nossa casa!!” Atropela um bocado mas não é por mal.

Perante a anunciada “cozinha equipada” encontrámos: 1 panela pequena. 1 única faca enorme. (pratos, copos, talheres de comer, e imensas… mesmo muitas chávenas de meia de leite para “zero” absolutamente “zero” cafeteiras… e aí a de caracóis vacilou). 2 bicos de gás só no andar de baixo. Sem gelo no frigorífico… as bebidas foram parar ao rio (“o viveiro”)
Um acha que 5 dias a arroz e atum variando com salsichas está maravilha. Outro suspira pelo “bacalhau à bolhão pato” que não poderá mais idealizar… Com as negociações próprias de quem nunca viveu junto pensamos em cozinhados deliciosos numa só panela pequena. Verdadeiro exercício intelectual.

Acordar com vozes diferentes. Passear e ver estrelas no gelo da noite com quem até aí tinha sido mais fácil falar de outras coisas e não tanto de nós. Os amigos crescem assim. Entre a vontade de ir dar uma corrida porque estar sozinho com os nossos pensamentos e ritmos é vital, alguma saudade daqueles com quem tudo é mais fácil, muitas vezes treinado... e a esperança muito grande, muito certa de que a vida é realmente fabulosa, que só nos podem esperar coisas extraordinárias!




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