28.12.05
UM NOVO ANO
“- Como? Há uma maneira específica de evitar o sofrimento?
- Sim, existe um meio.
- Uma fórmula, um método, o quê?
- É a maneira como tu aprendes as coisas (…) qualquer coisa pode servir de caminho. É por isso que é preciso nunca esquecer que um caminho é somente um caminho; se tu sentes que o não deves seguir, então sob nenhum pretexto continues a avançar nele. Para obter uma tal lucidez de espírito é preciso disciplinar a sua vida. Então, somente, tu poderás compreender que qualquer caminho não é senão um caminho ao qual tu podes renunciar se o teu coração o deseja sem fazer afronta a ninguém, nem a ti nem aos outros. Mas a tua decisão de prosseguir um caminho ou de o abandonar deve ser livre de medo ou de ambição. Eu previno-te, considera cada caminho com toda a liberdade e com uma grande atenção. Experimenta-o tantas vezes quantas o julgares necessário. Depois coloca-te a ti, e só a ti, uma questão; uma questão que só um velho se pode pôr. (…) No presente, eu compreendo a questão e vou-te dizer: “Este caminho tem um coração?”
Todos os caminhos são os mesmos, eles não conduzem a parte alguma. Há caminhos que atravessam a floresta, outros que vão pela floresta. Na minha própria vida, eu posso dizer que percorri longos, longos caminhos, mas cheguei a algum lado. (…) Este caminho tem coração? Se sim, o caminho é bom, se não é inútil. Estes dois caminhos não conduzem a parte alguma, mas um dentre eles tem um coração e o outro não tem. Um é propício a uma viagem maravilhosa; assim durante todo o tempo em que tu o seguires, tu não fazes senão um com ele. O outro fazer-te-á maldizer a tua vida. Um torna-te forte; o outro torna-te fraco.”


CASTANEDA, C., L’herbe du diable et la petite fumée – une voie yaqui de la connaissance, Paris, Editions du Soleil Noir, 1972

Encontrei este texto num livro de uma querida amiga, Teresa Joaquim, “Mulheres de uma Aldeia”, Lisboa, Colecção Ulmeiro / Fémina – n.º 3, editor José Antunes Ribeiro, 1985

Fiquei muito quieta no escuro depois de o ler, antes de adormecer numa noite mais. Eu e as pessoas que sinto sempre muito perto de mim. Tinha algo a dizer-nos este texto. Tem ainda.
Dedico-o a todos os que para sempre quiserem escolher caminhos com coração.

26.12.05
Música
Aquela família sempre foi séria. Não fazendo muito caso da quantidade de crianças ali sempre se respeitou o silêncio. Quando se cantava cantava-se bem. Afinal a tradição e o estudo passava por coros e até um cancioneiro familiar existia.
Os Natais sempre foram com muita música, começando pelas de Natal mas depois seguindo, quase a eito, o cancioneiro.
O patriarca, ao cimo da mesa, impunha respeito e exigia afinação.
Este ano cantou-se uma música por pessoa e por prenda (que são o mesmo número, excluindo os dois pequenos) mas o patriarca já não estava lá. A sua falta é agora uma doce presença e não já uma difícil ausência como no ano anterior. Assim a desbunda foi quase total. Cantou-se cada um para o seu lado, uns cantavam "à velha na igreja", outros brincavam com a jeropiga, as crianças gritavam que não queriam mais prendas,...
A alegria era muita e isso é que conta. Apesar da minha vontade de uma certa arrumação o Natal renovou-se mais uma vez e foi bom assim.

A música mais bem cantada foi esta, talvez pela ligação à terra que todos temos.

LUAR DO SERTÃO
Autoria: Catullo da Paixão Cearense e João Pernambuco

Não há, ó gente, oh não,
Luar como esse do sertão

Oh, que saudade do luar da minha terra, lá na serra,
prateando folhas secas pelo chão.
Este luar cá da cidade, tão escuro,
não tem aquela saudade do luar lá do sertão.

Se a lua nasce por detrás da verde mata
mais parece um sol de prata prateando a solidão.
E a gente pega na viola que ponteia,
e a canção é lua cheia a nascer do coração.

A gente pia desta terra, sem poesia,
não faz caso desta lua, nem se importa com o luar.
Enquanto a onça, lá na verde capoeira,
leva uma hora inteira vendo a lua meditar.

Ai! Quem me dera que eu morresse lá na serra,
Abraçado à minha terra, e dormindo de uma vez!
Ser enterrado numa cova pequenina,
Onde à tarde a sururina chora a sua viuvez!

com pouco respeitinho, sff.
Depois de um Natal cheio de bom humor, aqui ficam os meus votos para uma campanha eleitoral mal humorada, cheia "agressividade" e "mal criadeza", e com o mínimo "respeitinho" possível, se faz favor:

«Insinuam agora por aí que o dr. Soares foi "agressivo" e "malcriado" com o dr. Cavaco. Extraordinária coisa. Ou talvez não. Na terra do salamaleque e da curvatura, do "sr. dr." e do "sr. prof.", com certeza que não. Já alguém viu uma entrevista ou um debate na Inglaterra ou na América (e não em Espanha em que o governo controla a televisão)? Alguém reparou no que têm de aturar, e com boa cara, Bush ou Tony Blair? Ao que parece, o dr. Cavaco e os portugueses não gostam dessas democracias grosseiras. Preferem uma democracia empertigada, com muita prudência, presunção e língua-de-pau. E, claro, uma sociedade sem espécie de consciência de si, que chama "inverdade" à mentira e que acha a verdade geralmente ofensiva. Os piores paspalhões que, por azar, encontrei na política indígena subiram quase sem excepção a altos lugares. Não "saíam do seu lugar" e não ofendiam susceptibilidades. Milagres do "respeitinho". Portugal nunca se deu bem com a liberdade.»

(Vasco Pulido Valente, "Público" de 24 de Dezembro)

25.12.05
Doces Bárbaros - 26 anos depois
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Primeiro não havia nada, nem gente, nem parafuso
O céu era então confuso e não havia nada
Mas o espírito de tudo quando ainda não havia
Tomou forma de uma jia, espírito de tudo
E dando o primeiro pulo tornou-se o verso e reverso
De tudo que é universo, dando o primeiro pulo
Assim que passou a haver tudo quanto não havia
Tempo, pedra, peixe, dia, assim passou a haver
Dizem que existe uma tribo de gente que sabe o modo
De ver esse facto todo, diz que existe essa tribo
De gente que toma um vinho num determinado dia
E vê a cara da jia, gente que toma um vinho
Dizem que existe essa gente dispersa entre os automóveis
Que torna os tempos imóveis, diz que existe essa gente
Dizem que tudo é sagrado, devem se adorar as jias
E as coisas que não são jias, diz que tudo é sagrado
E não havia nada, espírito de tudo
Dando o primeiro pulo, assim passou a haver
Diz que existe essa tribo, gente que toma um vinho
Diz que existe essa gente, diz que tudo é sagrado.


(Gênesis por Caetano Veloso)

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Estes jovens voltaram bem dispostos tão espectaculares como antes. Por cá podemos assistir ao concerto em DVD ou ouvir o CD velhinho, qualquer um deles perfeito.

Bons nascimentos
Utilizei este ano (embora provavelmente me tenha lembrado dela nos anos passados) a expressão "bons nascimentos" (sempre por escrito) como substituta do habitual "bom natal". A expressão "bons nascimentos" serve para desacomodar o "bom natal" e se entenda que "natal" significa "nascimento": assim como quem lê a letra de uma música que já ouviu vezes sem conta e encontra nela novas "chaves". "Bons nascimentos" faz sentido para o Natal como para um ano novo, dia a dia.

Dizer "bom natal" sabe-me bem. Aos amigos, às pessoas nas lojas, com desconhecidos, onde quer que seja, tenho profunda consciência e agrado de que é forte o que estou a oferecer quando o digo. Digo-o com as letras todas e seguro, criando pontes naives (ou talvez não) para as pessoas a quem me dirijo.

Nascer implica um desejo, um projectar de vida, mesmo quando o que nasce não são pessoas mas sonhos e projectos. Qualquer coisa de esperança (embora não me agrade a palavra), de promessa, de utopia enquanto objectivo a prosseguir. Esses desejos dão trabalho, como viver segundo o que acreditamos dá trabalho nem que seja porque é muito fácil sermos assediados (e não falo nem em tentações, nem em pecado, nem em nada de diabólico) para outras vidas que não a nossa em que acreditámos, sabendo ou intuindo; ou porque nos distraímos, felizmente, muitas vezes do que somos. Fica uma achega de Eça de Queiroz n'Os Maias sobre desejar para me ajudar nesta explicação:

«Falhámos a vida, menino!
-Creio que sim... mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: “vou ser assim, porque a beleza está em ser assim.” E nunca se é assim. É-se invariavelmente "assado", como dizia o pobre marquês. Ás vezes melhor, mas sempre diferente.»

Dentro desta "imaginação" ou "desejo" de futuro cabe donde viemos. E o natal é uma festa da família (enquanto conjunto de pessoas de que gostamos, a que nos unimos) e é sempre na família que se nasce e onde normalmente se morre. Um ninho onde nos aconchegamos em posição fetal. Ao fim da noite, num abraço, uma mãe diz sussurrante "nós desejámos ter-te e é muito bom que tenhas nascido". Compreende-se então que somos pequeninos em muita coisa mas incrivelmente enormes por cá existirmos em contínuos (re)nascimentos...

Bons nascimentos!

22.12.05
Primeiro dia deste natal
Andavamos a duas por aqueles corredores. Tão diferentes de todos os outros. Os vidros com muitos desenhos antigos, bonitos, que convidam a ficar a ver os seus pormenores, que convidam a respirar fundo.
As batas brancas tinham bonecos. Passeavamos apenas. Brincando aqui e ali. Observando apenas também.
Chegaram muitas crianças todas com a mesma roupa e posicionaram-se muito direitinhas (algo antiquadas) nos degraus. O maestro parecia um pinguim porque falava com o pescoço muito para cima (e as suas palavras eram fáceis).
Cantaram (não muito bem, alguns com um certo ar de "tirem-me daqui", como é natural).
Várias crianças de pijama foram assistir. Alguns pais comovidos por aquele presente (=fazer-se presente) aos seus filhos (e a eles também embora não o soubessem).
Chegou o Gonçalo. Uma criança de 7 anos, internado há 7 anos. Nota-se na sua cara feliz que é muito doente e várias criança do coro desabaram, começaram a chorar, saíram ao colo de médicas daquela sala.
Pela primeira vez senti o arrepio do Natal este ano. Ali estava a festa do Natal, sem dúvida.
Cá fora as médicas explicavam às crinças em lágrimas que não temos de ser todos iguais, que as crianças são diferentes umas das outras assim como os adultos. Que todos temos de ser felizes à nossa maneira e que o Gonçalo podia ser mais feliz ouvindo-as cantar.

Porto, dezembro de 2005

Nas andanças do natal...
... três prendas.

Um Blog:

"As minhas asas podem ser feitas de cimento ou betão armado. Podem ter vigas fortes e estruturas de ferro a espreitar nos rasgos do estuque e do cimento. Mas são leves e transportam-me para junto de praças amplas e igrejas destruídas. Debaixo das Tílias, onde na Primavera se pode cheirar a brisa da sua púrpura e ouvir murmurar o Spree. Pousarei junto às pedras dos museus, que são quentes pelos anos de sol e história. Ou então nas grandes janelas dos prédios que dão para as ruas claras e outonais da minha recordação alemã."

Um livro:

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E um conjunto de boas fotografias:

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20.12.05
"Vais chegar"
«Vais chegar, Emanuel, ó Deus-connosco!
Vais voar e sobrevoar os espaços encurralados a que nos prendemos.
Vais Chegar trazendo misericórdias às nossas dilacerações.
Vais olhar para nós e fazer-nos parar o passo apressado que nos devora.
Vais avizinhar-Te oculto em quem não Te esperávamos.
Vais libertar-nos as mãos que o vazio disfarça com embrulhos e afazeres.
Vais escutar aquilo que realmente põe o nosso coração a bater.
Vais aproximar o Teu ouvido.
Vais sugerir-nos silêncio (de facto, as palavras por vezes atrapalham).
Vais perguntar-nos pelo nosso sorriso.
Vais abraçar-nos, Ò Deus-connosco!»

José Tolentino de Mendonça, 2005

Votos de um bom Natal actualizado.

15.12.05
onde iríamos...
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

in Passagem das Horas, Álvaro de Campos

Há já algum tempo li com a Joana este poema. E por várias vezes pensei se o colocaria aqui ou não.
Não gostaria que me vissem pessimista, ainda que por vezes o possa sentir eu.
No entanto, este poema para mim não é isso. Fala de tudo o que vivemos e se integra em nós. De tudo o que queremos ainda viver. Porque se não houvesse esta sensação "é tanto, é pouco para o que eu quero" onde iríamos?

14.12.05
Política da negação
Estive a ler o Super Mário e cheguei à conclusão que não tinha lido nada sobre o dito Super. Falava de Manuel Alegre, muitas vezes do gajo taciturno e de nome triste, mas nem de Mário, nem de Soares.

Pergunto-me se os 13 senhores e a senhora que criaram este blog a apoiar Mário Soares o fazem apenas contra Cavaco Silva e não a favor de Mário Soares. É que se assim é, apesar de válido, parece-me pouco.

13.12.05
Apontamentos de viver com pessoas.
A viagem tinha sido longa, muito longa.
Um dia alguém me disse que as crianças, quando se sentem viajar durante muitas horas, muita estrada passar, ficam com a sensação que estão demasiado longe, duvidam talvez que possam voltar.
Aconteceu-me sentir-me muito longe, muito longe de tudo. No entanto, soube bem.
A viagem tinha sido longa. Com tempos de cantoria, de “chega para lá o teu pé, já não sinto o meu de tão esmagado”, alguns uivos de brincadeira, muito tempo de silêncio. Entre as curvas e contra-curvas daqueles dias pensei várias vezes que, conforme as idades, fazemos viagens diferentes. Os silêncios são diferentes conforme as idades, conforme o que vivemos em cada altura. E é bom reconhecer um pouco, nos silêncios dos outros, o que estarão a pensar. Ou não.

Chegar a uma casa desconhecida. Um está maravilhado, “a varanda é espectacular! Está tudo arranjado”. Outro faz um ar desiludido, não era nada daquilo que imaginava… não era pitoresca, não era típica... Ela olha para a lareira e falta-lhe um sofá, como estar à lareira sem sofá? O quarto: calado, não se preocupa, faz parte dele ser assim. A dos caracóis abre tudo, começa a dizer que vamos mudar tudo de sítio, trazer um colchão do andar de baixo para sofá, trocar a mesa de lado e posição, esconder a lenha e os paninhos foleiros “vamos tornar isto na nossa casa!!” Atropela um bocado mas não é por mal.

Perante a anunciada “cozinha equipada” encontrámos: 1 panela pequena. 1 única faca enorme. (pratos, copos, talheres de comer, e imensas… mesmo muitas chávenas de meia de leite para “zero” absolutamente “zero” cafeteiras… e aí a de caracóis vacilou). 2 bicos de gás só no andar de baixo. Sem gelo no frigorífico… as bebidas foram parar ao rio (“o viveiro”)
Um acha que 5 dias a arroz e atum variando com salsichas está maravilha. Outro suspira pelo “bacalhau à bolhão pato” que não poderá mais idealizar… Com as negociações próprias de quem nunca viveu junto pensamos em cozinhados deliciosos numa só panela pequena. Verdadeiro exercício intelectual.

Acordar com vozes diferentes. Passear e ver estrelas no gelo da noite com quem até aí tinha sido mais fácil falar de outras coisas e não tanto de nós. Os amigos crescem assim. Entre a vontade de ir dar uma corrida porque estar sozinho com os nossos pensamentos e ritmos é vital, alguma saudade daqueles com quem tudo é mais fácil, muitas vezes treinado... e a esperança muito grande, muito certa de que a vida é realmente fabulosa, que só nos podem esperar coisas extraordinárias!


frio pela espinha a baixo
Estava de costas para a televisão e, mesmo contando com o que ali iria começar, não consegui evitar a descida de um frio pela espinha a baixo... aquela voz de velho outra vez, aquele tom, aqueles argumentos que, em pequena, aprendi a primeiro perceber e, depois, a não gostar.
Naquele frio entendi a tristeza daquela voz estar outra vez no meu dia-a-dia.
Cavaco Silva, nome de tristeza.

12.12.05
A Gertrudes
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"Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira Gertrudes, que era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar e mandava em tudo, e sabia tudo. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia.
A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada.

- Gertrudes, ouve uma coisa - disse Joana.
A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus.
- O que é? - perguntou ela.
- Que presentes é que achas que vou ter?
- Não sei - disse Gertrudes -, não posso adivinhar.
Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso continuou a fazer perguntas.
- E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes?
- Qual amigo? - disse a cozinheira.
- O Manuel.
- O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns.
- Não vai ter presentes nenhuns!?
- Não - disse a Gertrudes abanando a cabeça.
- Mas porquê, Gertrudes?
- Porque é pobre. Os pobres não têm presentes.
- Isso não pode ser, Gertrudes.
- Mas é assim mesmo - disse a Gertrudes fechando a tampa do frono.

Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido que era «assim mesmo».
Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite. E sabia tudo o que se passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as histórias das pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e os homens."

(excerto de A Noite de Natal de Sophia de Mello Breyner Andresen)

Descobri a Gertrudes e apresento-vos. Espero que alicie a curiosidade para uma leitura com um outro tempo que se deixe deslizar nas palavras. Bom Natal.

PÉ DESCALÇO NO SOALHO
O 43º Comtextos já saíu e é sobre O CORPO!
Quem quiser saber mais sobre esta revista e "os lugares que nos habitam" tem apenas de procurar no blog: comtextos-mce
Encontrará capas, índices, editoriais, pequenas partes dos textos e as apresentações dos seus autores. Estão ali todos os Comtextos editados desde Setembro de 2004.


















1 – O CORPO COMUNITÁRIO, SEGUNDO JOSÉ GIL
Fernando Belo: Professor de Filosofia da Linguagem na Faculdade de Letras de Lisboa, jubilado.

2 – CORPOS POLUENTES
Rosa Maria Perez: Doutorada em Antropologia Social pelo ISCTE onde é agora professora. Tem realizado desde 1983 trabalho de investigação sobre a Índia, primeiro no Gujarate, sobre o sistema de castas a partir de um grupo de intocáveis, e, depois em Goa, sobre o hinduísmo e os mecanismos de intercepção entre ele e o cristianismo. Trabalhou também em questões de identidade e etnicidade.

3 – A INSPIRAÇÃO – DO CORPO DA POESIA
Graça Capinha: Professora Auxiliar do Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras e Investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Responsável pelo Curso Livre “Oficina de Poesia”.

4 – DA PELE QUE ME COBRE
Márcia Santos: Finalista do curso de Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Frequentou aulas de Movimento, no C.E.M., e aulas de voz aliadas com sessões de Fasciaterapia.

5 – O CORPO E A EXPRESSÃO NA DANÇA
Índio Queiroz: Nasceu no Brasil onde teve inicio a sua formação e experiência profissional na dança. É licenciado em Educação Física pela Universidade Católica do Salvador. Em 1991 muda-se para Portugal e dá seguimento ao trabalho na dança contemporânea como coreógrafo, professor e também como intérprete das suas próprias criações e de outros criadores. Colabora com companhias de teatro como a Seiva Trupe e o Entretanto Teatro e recentemente criou o Vídeo-Dança “O Estranho Mundo dos Crawford”, com a realização de António Pires, apresentado no Frame e seleccionado para o Arte non Stop no Santiago Alquimista, em Lisboa.

6 – ELA ESQUECEU-SE DO PRÓPRIO CORPO
Sílvia das Fadas: Ela cresceu nos mundos de teatro do CITAC e descobriu o cinema num impulso, no súbito desejo de transformar as palavras em imagens. Seguindo um antigo rastilho de olhar para fora e para dentro ao mesmo tempo deixou a sua cidade circular para terminar os Estudos Artisticos na bella Roma.

7 – O CORPO. Algumas perspectivas da deficiência visual
Domingos Diogo: Músico. Actualmente trabalha em dois projectos de Música Tradicional Portuguesa: "Grupo de Cavaquinhos da Nestlé" e "Ventos da Ria". Lecciona aulas no ensino de música e instrumentos Já foi Retroseiro. É dirigente na Associação Portuguesa de Deficientes.

8 – ÀS VEZES AMARRA, ÀS VEZES ASA
José Carlos Patrício: Desejou ser padre mas só conseguiu ir até amado professor de História. Depois foi convencido pelo sogro a ser arquivista. Hoje adora sê-lo, no Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra. Também é feliz a cultivar a terra e a fazer amigos.

9 – PALPITAR A TREZE TEMPOS
Beatriz Batarda: Formou-se na Guildhall School of Music and Drama, Inglaterra, em representação. Foi nessa categoria que recebeu a medalha de ouro do curso. Em cinema participou em filmes como: Tempos Difíceis, Vale Abraão, A Caixa, Dois Dragões, Porto Santo, Elas (Elles), O que te quero, Peixe-Lua, Quaresma, Noite Escura, A Costa dos Murmúrios e, mais recentemente, em Alice. Em teatro fez parte do elenco das seguintes peças, em Inglaterra, Love's labours lost; Beyond a joke, e, em Portugal, The winter's tale, Triunfo do Inverno, Um auto de Gil Vicente, Crónica Geral de Espanha, Sonho de uma noite de verão, Vozes da paixão.

10 – PONTO DE EXCLAMAÇÃO (!)
José Rui [criança de 5 anos] e Pedro N. [criança de 7 anos]

7.12.05
escolher o último lugar
Também a propósito de Foucault a Xis publica uma entevista ao P.e José Manuel Pereira de Almeida:

«A questão da universalidade, de que Charles Foucault é um apaixonado radical, revela-se nele como o desejo de querer ser "o irmão de toda a gente", no sentido de querer ser o irmão mais novo, o pétit frère que vem último lugar. E escolher essa situação é querer ter no seu coração lugar para todos. É não ocupar o espaço que normalmente ocupamos quando nos pomos no centro das coisas. Vive-se por amor e no respeito pela alteridade, pelas diferenças na reciprocidade de uma relação fraterna. Significa não querer para nós os primeiros lugares. É uma escolha de amor.»

o anjo da História
"Há um quadro de Klee, intitulado Angelus Novus e nele há um anjo que parece estar afastando-se de algo que olha com atenção. Tem os olhos esbugalhados, a boca aberta, as asas preparadas para o voo. O anjo da história deve ter esse aspecto. Numa série de acontecimentos, vê uma única catástrofe. Acumula ruínas e mais ruínas, lançando-as aos seus pés. Ele bem desejaria parar, acordar os mortos e recompor a fractura. Mas cai do céu uma tempestade que lhe emaranha as asas e é tão forte que não consegue fechá-las. Essa tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, ao qual volta as costas, enquanto o monte de ruínas sobe diante dele até aos céus. Essa tempestade é aquilo a que chamamos progresso."

Angelus Novus, Klee

O texto acima é de Walter Benjamin, citado por frei Bento Domingues no domingo passado. A esperança não é pintar o mundo de cor-de-rosa: "o anjo da história vê um amontoado de ruínas precisamente onde o olhar utópico vê a génese e o carro do progresso. A concepção ascendente da esperança, rumo ao futuro, precisava de revisão. A teologia da cruz (...) apresenta-se como a tentativa de levar a teologia a assumir a agudeza e a profundidade do olhar do anjo da história, tornando-a intérprete do sofrimento humano".

Depois fala de Charles Foucault: "Não há figura do cristianismo moderno que tanto espere contra toda a esperança humana! Nunca viu sinais de futuro no silêncio a que se entregou. (...) Ele representa a Igreja que escuta antes de falar, que procura mudar antes de pregar a mudança da sociedade, que se faz pobre antes de encher a boca com a causa dos pobres."

4.12.05
Chegar a crescido de Pedro Strecht
"Algumas coisas só se podem fazer em crescido.
Ler alguns livros, reparar noutras singularidades só se faz em crescido.
E perceber esses livros e esquecê-los de seguida, só em crescido.
Sofrer como nalgumas vezes só pode acontecer em crescido, porque antes simplesmente não há coração para isso, ou melhor, há mas ele não aguenta.
Abrir as janelas de par em par, perder o passado num rés-do-chão rente à vida (a cama do amor) só em crescido.
Ser mais tranquilo, cozer o Outono num lume brando, falar tranquilamente connosco, ouvir músicas desabrigado e escrever a saudade num refrão em silêncio (noite alta) com, a boca, os dedos os olhos, os sentidos todos e ficar, só em crescido.
Respirar o céu, aquecer o sol, beber a água toda de um rio, escrever copiosamente com tinta azul? chuva dos teus olhos palavras excessivas e tentar movê-las numa dança pela sombra que fazem no papel? dar, enfim, um ramo de flores à Primavera, só em crescido.
Mesmo que doa, e para lá chegar custa (!) ? não sabe a azedo ? só em crescido se fica mais próximo de viver a vida toda."


Não faço ideia do tempo que passou desde que tinha lido este texto. E nem sei, para ser sincera, se já aqui o terei publicado.
Sei que gosto dele. Crescer. Talvez cresça cada vez que o leio. Mas ainda falta muito para isso.

1.12.05
momento certo
Um dia estranhamente escuro. Chove muito aqui. Sabe bem o quente da casa, o cobertor, o livro.
Este livro que me ofereceram há tanto tempo. Comecei a ler. Não sei porquê aconteceu o que nunca acontece, abandonei-o lentamente, sem dar conta. Um dia peguei nele e mostrei-o a outras pessoas, li um pouco para apenas dizer como são para mim as crianças. E ninguém percebeu. Não gosto que brinquem com tudo. Fiquei zangada. Arrumei o livro outra vez.
Há uns dias procurei-o de novo. Comecei a ler e agora segura-se a mim como as crianças que não querem que vamos embora. No meu colo abraça-me e diz “fica, fica, fica…”
O banho que a autora descreve é das coisas mais bonitas que já li.
Gostava que ela escrevesse sobre as árvores no Inverno.



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