17.11.05
tempos de ocupar
Estávamos a andar, um pouco apressados para mim naquele acompanhar de passos grandes. Ele, no seu jeito magro e alto, despenteado e um pouquinho gingão, tinha que me mostrar aquele texto! Não havia tempo, mas ele queria mostrar-me. Então foi a ler enquanto os nossos passos nos levavam. Aqui estão algumas partes.


“Não é a primeira vez que me põem questões do género: «as minhas paredes estão vazias, quero comprar quadros para as encher, o que me aconselhas?» ou «precisava de objectos para as minhas estantes, vens comigo escolher, logo à tarde?»
Invariavelmente, ensaio uma enfadonha didáctica da colecção que passa por explicar que não se compram de um momento para o outro quadros, cinzeiros, mesas, cortinados, serviços de jantar, livros.
Sempre pensei que (…) os objectos, as gravuras, os pratos, só fazem sentido se carregarem a história pessoal que lhes esteve na génese. Só merecerão as nossas paredes se forem amados, desejados, obtidos com dificuldades (económicas, prestações, perigos). (…)
A «colecção instantânea» arrepia-me. Nada se mereceu, nada se conquistou, é tudo fruto do mais grosseiro dos acasos, da desordem circunstancial de determinada loja em determinado dia de semana de um qualquer ano.

Também me afligem os jovens casais que não descansam enquanto, no subsequente mês ao casamento, não equipam toda a casa com candeeiros, dúzias de cadeiras, paredes inteiras de estantes onde alinham desgarrados objectos que, num esforço desmemorizado, os colegas do emprego lhes ofereceram, à toa. Penso que esses casais deveriam pugnar por uma grande despensa/arrumação onde guardassem toda a quinquilharia, exibindo A CASA VAGA, ESPARTANA, BRANCA, COMO UMA TELA VIRGEM ONDE AO LONGO DOS ANOS PUDESSEM VIR A INSCREVER A VIDA, AS VIAGENS, AS ZANGAS, OS FILHOS, AS FOTOGRAFIAS DE DOMINGOS LONGOS, UM MÓVEL APANHADO NO LIXO, OS PRIMEIROS DESENHOS DE UM SOBRINHO. Isso será um ambiente, o ambiente deles, o que os distingue dos amigos, do sítio onde cada um acumula o pó, onde ficam os jornais velhos, os cadernos de liceu, embalagens gastas de remédios, anúncios recortados de casas melhores.” (…)

Manuel Graça Dias


Eu ri-me deste meu querido amigo. Só ele me mostraria este texto e no entanto não sei se ele sabia o sentido que ele faria para mim, como aquilo explicava o que nunca consegui explicar.
Gosto de casas vazias, gosto de paredes brancas. Não gosto de entrar em casas em que parece que acabei de abrir uma revista, não me atrevo a sentar no sofá, a mexer num livro, a ordem e a combinação são tais… Também nunca percebi quem ocupa uma divisão enchendo logo as paredes com imagens, combinando logo cortinados com tapetes. Essa pressa assusta-me. Assustam-se as listas de casamento. Só de pensar que numa só loja (ou pouco mais) duas pessoas tiveram de escolher tudo e mais alguma coisa que lhes pudessem oferecer de uma vez. (não entendo muito bem as prendas de casamento) As casas montadas antes de se lá morar. Os móveis de várias casas todos comprados no IKEA. Muito design cansa-me. Os candeeiros de tecto colocados à pressa, com os fios eléctricos à mostra. Vê-se bem que ali não entrou o tempo, não entrou a vida dos dias que correm, os riscos dos nossos passos no soalho, o esmurro da porta onde batemos com o pé, aquela almofada um bocadinho manchada do dia em que comemos no sofá, os papeis, muitos pelos sítios onde ficam muito feios mas só ali os encontramos, a panela que era da avó, o móvel que os pais fizeram quando não tinham dinheiro para comprar um.
Podem ser tudo disparates, mas talvez por eles queira começar por uma casa pequenina, gostava que não fosse nova. Gostava de não ter pressa nela.



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