24.11.05

uma_imagem_gira

Alto e lá longe vi a passarada passar.
Pequenos pontos dançantes sobre o sol que se põe.

Todos os dias os fotografo à mesma hora e no mesmo sítio: a barragem em frente ao meu barraco. Encontrei um ritual habitual para viver, não quero mais imprevistos. A vida já me foi tão cara que me sinto um pechisbeque. Dia a dia, hora a hora, sei tudo o que me vai acontecer, como vou reagir, solitário como escolhi.

Não tenho conseguido e ontem de novo "pus os pés naquela parte da vida além da qual se não pode ir com a intenção de regressar". Encontrei-me de novo e voltei a fechar-me em mim, sem saber que espaço é o meu, que função na sinfonia da vida.

Fotografo mais e mais, obcecado por saber o que vai lá fora. Preciso de imagens, muitas e que não digam nada sobre mim.

A vida tramou-me outra vez, imprevisível no meu hábito. O sol pôs-se como era suposto e eu continuo aqui obcecado por não viver, deixar os dias passar, soltos e iguais...

(texto escrito n'A BARRACA numa sessão da CRIA)



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