15.11.05
O sol nasceu
Uma ideia que me acompanha há muito tempo.
Desde criança que sempre achei que um dia iria ver.
Hoje decidi. Convenci as três pessoas com quem queria partilhar.
Chegámos um pouco envergonhados. O ambiente era tranquilo. Eu disse quem éramos e perguntei se estava algum bebé para nascer. Numa grande alegria a médica disse “um, não, vários! Podem entrar.”
Primeiro explicou-nos muito calma alguns cuidados, não havia pressa. Os bebés é que escolhem quando espreitarão a luz pela primeira vez.
Chegava esse momento num dos quartos. Fomos só duas. A intimidade não pode ser quebrada.
Primeiro. Quietas. Como alunas olhávamos com respeito. Sem muita expressão. A mãe estava assustada, com dores, com medo de não conseguir. O pai estava nervoso mas apoiava-a dizendo poucas palavras firmes e baixinho. Nós quase imóveis acompanhávamos. O coração a bater depressa cá dentro. O crescendo começou, todos sabíamos o que ia acontecer e as palavras de incentivo eram seguras, à mãe pedia-se toda a força do mundo e lembrava-se que era o seu filho que ia nascer, que ia “saltar para o meio da vida”!! (lembrei-me do poema)
Quase irrequietas nós começámos a sorrir. A cabeça apareceu e mal cabíamos em nós de contentes. O bebé estava cá fora e todos comemorámos juntos. A mãe aliviada e feliz. O pai orgulhoso. Seguimos os cuidados ao bebé. Limpar, ver se está bem, vestir pela primeira vez. Olhávamos babados (agora já os 4) aquela bebé pequenina que respirava pela primeira vez, que pela primeira vez sentia frio, renovava a sua circulação, sentia mãos, sentia vozes assim mais perto. Tudo com calma e carinhos. Vestidinha ela foi para ao pé de outro amigo que já tinha nascido. Ficaram ali quietos quase a conversar, muito pertinho um do outro balbuciavam. Vieram buscar o amigo e ela ficou só connosco. Os rapazes queriam saber o que nós tínhamos sentido, como tinha sido… tantas perguntas! Nós só respondíamos a rir! E falávamos muito e imaginávamos quando formos nós. Ficámos quase uma hora a ver a aquele bebé tão perfeitinho. Sossegada, tentava mamar na mão. Tinha fome!
Entregaram-na à mãe para mamar. E agora eram os rapazes que iam ver um parto! Nós pudemos ficar à porta a ver, sem que os pais nos vissem. Este bebé foi mais rápido, era cheio de pressa! Chorou parecendo gritar “nasci!!”. Estava tudo bem com ele.
Os Luíses saíram. Corados, comovidos, felizes que só vendo. Diziam “se ficamos assim com os dos outros imagina quando formos nós!”. Abraçávamo-nos tolinhos de ali ter estado. Na televisão não se compara. Saímos como se mais nada importasse, tínhamos visto o começo da vida.
A Matilde o Leonardo nasceram hoje. E nós estávamos lá! Quando fiquei sozinha com eles disse-lhes em sussurro: "a vossa vida começou mesmo agora e vai ser boa de certeza."


no autocarro, no escuro, lembrei outro poema:

Disseste: o sol nasceu.
Foi verdadeiramente então que o sol nasceu
e que nos habituámos todos a dizer
que o sol nasceu.
Às vezes pensamos que acontece várias vezes
mas é uma ilusão de óptica que não nos deixa ver
o grande círculo azul em cujo centro
tu dizes eternamente: o sol nasceu.


pedro tamen

uma_imagem_gira
pablo picasso (encontrei uns dias depois)



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