3.11.05
Elogio da sala escura
O chão não é muito inclinado. As cadeiras não são confortáveis. Nada é bonito nem novo. Mas conheço o Sr. João que está sempre à porta. É muito gentil quando me vê e ri-se das minhas perguntas. Nas bilheteiras não se espera nem se compram pipocas. A sala invariavelmente com poucas pessoas agora já me faz estranhar quando, do outro lado da cidade, encontro os barulhos de uma sala cheia. Nas cadeiras posso-me enroscar e sentir que a tela enorme e aquele escuro é só para mim. No fim fico a ver o genérico passar só para ficar mais um pouco. Sinto um privilégio enorme de ter ali estado, de ter pertencido aquela história. Saio e cá fora é a rua, não o barulho da praças de alimentação, não as vozes altas de quem desce escadas rolantes, não aquelas luzes que enjoam. Como sair de um filme que muda a nossa vida (pelo menos naquele instante) e ver gente a comprar roupa?
Este é um elogio da sala escura nas salas de cinema velhas.



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