3.11.05
Corrente de ar
Detesto a conversa da sociedade de consumo a correr vertiginosamente para um individualismo cada vez mais exacerbado, na idiossincrasia do imediatismo e do facilitismo no que concerne ao desespero do fim dos tempos.
Ditas nestas insuportáveis palavras, num professor com ar acabado, a propósito da avaliação de radiografias...
Ar acabado dizendo que está farto de ser médico, que os médicos novos são muito simpáticos mas todos uns ignorantes. Que, com o tempo, é inevitável tornarem-se brutais mas aí sim... sábios! E então que escolhamos desde já a técnica e não a comunicação.
Falou... falou... falou... sempre com ar sermão entediado.
Terminou comentando o facto de sermos muito mais mulheres e que isso era mau... “Vocês não acham que é mau?”. Quando alguém disse com ar igualmente moralista que as raparigas seriam mais responsáveis e aplicadas ele respondeu “Não acho! As mulheres são mais superficiais!!!”

Quando é que se vai parar com esta história de as mulheres são assim e os homens são de outra forma qualquer. Somos todos gente. Carne. Ossos. Cabeça. Memórias.
Interesses, maneiras de ser e agir não nascem connosco no nosso sexo.
Porque nos quer este homem esmagar na sua desesperança?

Não! Não me queiram na cova que não tenho,
Porque eu vivo, e respiro, e acredito!
Sou eu que canto ainda e que palpito
No meu canto!
Sou que na pureza do meu grito
Me levanto!


miguel torga



HaloScan.com