16.11.05
Aqui todos têm nomes
Aqui todos têm nomes. O António. O Manuel. O Amadeu. Não são mais um arrumador, como para todos nós, enquanto habitantes duma cidade, são. Eles sabem quais as ruas que o António vai e quais os exames médicos que têm de fazer. Sabem que o Manuel já esteve no projecto mas que agora não quer ouvir falar em tratamentos. Quer ser livre na verdadeira prisão que a droga pode ser. Sabem que o Francisco já tentou muitas vezes e desistiu, sempre querendo voltar passado um tempo.
Ontem saí à rua. Fomos buscar o António para fazer rastreio da tuberculose. Numa rua do Porto onde ele costuma estar, lá o encontrámos. Não foi à primeira mas passado um bocado já se encontrava no local de trabalho. Entrou para o carro e fomos. Depois fomos fazer mais umas visitas a perguntar como andava a vida. Mostrar novos e melhores futuros a quem nos quiser ouvir. O Francisco olhou e cumprimentou. Já conhece as caras. Às vezes basta só mostrar que se está lá. Muitos já conhecia. Já os tinha visto. Quantas vezes já os terei evitado?
Mas ontem não. A sensação de que aqui ninguém desiste das pessoas ficou. A sensação de que vale sempre a pena encher futuros. Porque eles existem, mas precisam de ser relembrados.



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