28.10.05
Nascentia
uma_imagem_gira

Disse-me um dia alguém que “Do Caos nascemos para no Caos morrermos”. Nascemos aos berros, ensanguentados, em destroços. Depois ensinamos os olhos a ver, os ouvidos a ouvir, as mãos a reconhecer, a boca a saborear e os cheiros, por vezes sem darmos por isso, a intuírem auras.

Daqui donde estou não os posso ver, condicionado que estou pelo espaço e o tempo. Há formas de os fazer presentes mas sem esses cheiros, corpos ou vozes. Ergo nas imagens que trago comigo – liberdade da imaginação – recordações que ganham tons com a distância daqueles dias. Tudo se muda na minha imaginação, transforma-se sem eu poder fazer nada contra isso. Limitações do ser, da memória e dos sentidos.

Eram gente de sangue a correr nas veias. As imagens ainda estão quentes. Eram gente jovem e bonita, nervosos por terem que dar mais de si, por terem que debater-se com barreiras, deitar abaixo bloqueios para criar novos espaços. Exigentes mas sem que isso fosse angústia. Chegavam com pedacinhos de curiosidade, tão concretos que se podiam abraçar. Pareciam chegar sempre a sorrir, era bom sentir que iam para ali com gosto.

Quando começavam os exercícios, debatiam-se com eles e podiam fazer qualquer um acreditar no mundo. Empenhavam-se a sério sem utilidade, é bom fazer coisas que não são precisas para nada – “navegar é preciso, viver não é preciso”. Talvez algumas das imagens que tenho deles já estejam demasiado exageradas pelo tempo, com tons demasiado fortes. Sentimentalóide memória.

Gostava de estar com eles, nem sequer se apercebiam do quanto me davam enquanto recebiam. E aqui não tenho o Favaios. Esta ideia de fazer da pessoa humana alguém que se anime a si própria e aos outros, que não se deixe adormecer, sempre me agradou. É um orgulho imenso acreditar no homem, que ele é capaz de mais, sempre mais.

Coração que sou, acredito que podem mudar tudo e que vão ter presente a palavra “liberdade” quando se sentirem mais desanimados. Agrada-me acreditar nisto, será que eles sabem?

Escrevem-me de lá que vão continuar a aprender uns com os outros novas formas de fazer e cuidar. Novas formas de descobrir eus e outros. Novas formas, ou as mesmas esquecidas, de inventar mundos em que acreditem. No fundo são nascimento e do Caos tudo podem construir, como dizia o Sérgio Godinho:

“O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou”


Eu, aqui, da Colômbia, acredito na incerteza deles.



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