10.10.05
Lezíria
Uma casa de mistérios, não existem corredores, as salas sucedem-se e nunca conseguimos prever o que vai aparecer. Uma sala muito pequena, uma mesa, estantes de livros, um telefone. Uma sala de pinturas azuis, sofás brancos. Outra sala e entra uma luz muito serena. Não parece lá fora ser o Ribatejo. Podemos escolher a sala onde queremos ficar um pouco.
Uma cozinha de mesa de mármore comprida no meio, tigelas de barro guardam os alimentos daquela terra. O fogão serve a muita gente, o lava-loiças é frio mas ali é necessária energia. As panelas estão penduradas nas paredes, por cima delas: tranças de cebolas.
Os quartos pequenos, com janelas junto ao chão. Uma cama, uma mesa-de-cabeceira com um candeeiro antigo, um pouco partido. Uma secretária e um armário. Apenas. E ali só parecem faltar os livros. Os livros fazem parte dos quartos, muitos livros. Dizem de quem ali dorme. Ponho o meu junto à cama.
Aquelas mulheres que ali vivem. Sente-se alegria e força. Coragem de quem rodou o mundo mas escolhe aquela lezíria para viver. Até à próxima viagem. Lê-se junto à buganvília e aos pés do pinheiro manso. Pinhões partem-se com uma pequena pedra. Ninguém faz muitas perguntas. Conhecem-me muito mais do que imaginava. Aceitam-me ali sem as idiotas boas maneiras. Estou na casa e venho por bem. Chega. Uma delas lembra-se de mim num único momento: o meu pai pegou-me ao colo quando o pai dele morreu. E eu não lembro. Lembro o ar triunfante da minha irmã ao chegar a Coimbra com um frasco cheio de sardaniscas vivas que lá tinha apanhado e da minha indignação, toda a possível aos 4 anos. Bati com a porta. Fugi dali furiosa.
Estas mulheres sabem de mim agora muito mais do que poderia ter mostrado em 3 dias. Metem-se comigo porque me leram.
Naquela casa, há recados por baixo de uma romã, na mesa da cozinha, para quem dorme até tarde.
As conversas são de olhos nos olhos. Não vale fugir. Falamos de educação, rimos muito e alto porque é essa a vontade. Rir ajuda a desanuviar tudo aquilo o que não entendemos! Falamos de África e falamos de política. Chega alguém que só eu esperava e acrescenta-se um prato. Revê-se amigas queridas e afinal todos ali eram amigos.
Há muitas chaves penduradas na parede, são de portas abertas, chaves descobertas, vidas repletas. Fica a vontade de voltar.



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