30.9.05
Reconhecimento à Loucura
Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descermos abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?

E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

José Almada Negreiros

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Esta loucura boa que nos faz “fazer dos abismos descidas de recreio”, atrevida e misteriosa. Novidade e Mudança.
Não é fabuloso entrarmos numa livraria onde apetece levar todos os livros, nada da nossa área de estudo, só coisas que não precisamos… olhar um livro em que nunca tínhamos pensado, desfolhar, e sem pensar levá-lo à caixa em passos largos e dizer “era este!”?
Deve ter sido esta loucura a explodir lá dentro. Melhor ainda quando não fica só aquele momento, o gozo continua.



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