28.8.05
regresso e ausências
Regresso de férias e encontro ausências.

Ausente o irmão Roger de Taizé, assassinado num momento de oração perante milhares de jovens. No funeral, o cardeal Walter Kasper lembrou-o como um comtemplativo que não suportava a divisão entre os povos nem a divisão entre os cristãos. Um contemplativo que tornou a pequena aldeia do Sul da Borgonha num farol para os que buscam a paz.
A minha geração cresceu acostumando-se a ouvir insultos. Creio que esse hábito de maldizer "os jovens" se deve ao medo do futuro: quem melhor que "os jovens" representa o que há-de vir? São pertinentes as últimas palavras do sábio irmão Roger: «Quanto a mim, iria até ao fim do mundo, se pudesse fazê-lo, para afirmar e voltar a afirmar a minha confiança nas jovens gerações.» Assim fez. Foi até ao fim.

Ausente a floresta aqui em frente, reduzida a cinzas. O cheiro a fuligem paira no ar e entranha-se na casa. Decidi fotografar esta catástofre, para não esquecer até onde ela pode ir. Entretanto deparei-me com o artigo do Fernando Ilharco onde ele psicanalisa a nossa neurose com os incêndios:
«Se as catástrofes de facto nos protegem de algo pior, então nos incêndios deste e dos outros verões deve entender-se que a incompetência nos poderes fácticos, o medo generalizado da qualidade dos outros, o poder da mediocridade, a incapacidade do estado e da sociedade civil, que tudo isso, de alguma forma é um esforço derradeiro de palavra Portugal, um aviso final, um grito surdo da história na esperança de que algo possa ainda acontecer. Mas hoje o mundo vive outras catástrofes e pode ser demasiado tarde.»
Risco o pessimismo da última frase e espero que este fogo destruidor possa ser também o fogo simbólico que nos transforme. E fotografo para fazer memória.



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