13.8.05
a Europa e o Cristianismo
Embora estejamos em tempos de férias, este blog mantém a sua (inebriante) actividade habitual. Desta vez o texto que está já aqui a seguir mereceu um comentário e um post de resposta do Filipe Alves. Nas caixas de comentários dos dois blogs há mais umas bocas. Vamos à discussão que interessa, que é a da necessidade de evangelizar a Europa e do que é que isso significa.

Quando digo que concordo com Ana Vicente em chamar hoje a Europa de cristã, o que pretendo enfatizar é que muito do bom que aqui se vive veio do cristianismo (obviamente sem exclusivos e com muitos erros e pecados): direitos humanos, liberdade religiosa, laicidade, noção da dignidade da pessoa, noção de bem comum, bem estar, direitos sociais, etc. E isto não são apenas conquistas materiais que o cristianismo supera largamente, como o post do Filipe parece indicar. Como ele diz, o cristianismo não é uma mensagem política, mas é uma mensagem com valores que têm tradução na vida política da sociedade. Por isso a Igreja vai produzindo a sua reflexão sobre a sociedade nos textos da doutrina social da Igreja. Naturalmente, como afirma o Filipe, «a doutrina cristã transcende em muito os valores sociais de "liberdade, igualdade, fraternidade, justiça e paz"». Isso hoje é fácil de perceber, quando esses valores estão (minimamente) acentes. Mas é só olhar para a história do século vinte para perceber como a paz, a justiça, a igualdade foram conquistas complicadas, onde o cristianismo teve um papel libertador essencial. Não creio que a fraternidade esteja tão acente como os anteriores. Até entre os cristãos há quem não seja sensível à necessidade do combate à pobreza... E a paz também não vive dias felizes.

Sem pretensões de fazer um diagnóstico aos problemas da Europa e da vivência do cristianismo, avanço só mais duas ou três questões:

Uma: hedonismo vs. aceitação do sacrifício. A "aceitação do sacrifício" que faz parte da mensagem cristã é difícil de entender na nossa sociedade consumista. Mas é preciso explicar que não é o sacrifício por si só que tem valor. Ele tem valor se for uma oferta, quer dizer, se for feito com um fim que o ultrapasse. Pregar o sacrifício por si só tem pouco sentido. Depois de tantos anos a ouvir que o prazer era pecado, é natural que agora ninguém ligue à questão do sacrifício. Por isso tenho muitas dúvidas quando oiço aqueles discursos que contrapõem o "ser" e o "ter", como se os cristãos fossem umas almas imateriais que passam sem um bom almoço.

Duas: a "Entrega total a Deus e ao próximo". Parece-me que falta concretizar e discutir o que é que significa hoje essa entrega a Deus e ao próximo. E aqui voltamos a questões políticas: solidariedade, atenção às situações de pobreza, solidariedade intergeracional, problemas ecológicos, terrorismo, conflitos e situações de miséria subsistentes,... A Europa tem um papel essencial de ajudar ao desenvolvimento de outros povos. Para dar um exemplo, a Igreja devia pregar o sacrifício de acabarmos com os subsídios à nossa agricultura para abrir o comércio aos produtos dos países subdesenvolvidos.

Três: discordância teológica. Não concordo que "enquanto cristãos, acreditamos que a vida que realmente interessa não é esta pobre existência terrena, mas sim a que há de vir". Caso assim fosse, de facto, a taxa de alfabetização e a esperança média de vida não eram para nós preocupações. Mas são. A mensagem cristã é clara quanto a isto: o Reino de Deus -- a dimensão de Deus -- não é uma recompensa de bom comportamente no final desta vida miserável. Entrar na dimensão de Deus, viver aqui e hoje a boa notícia anunciada por Cristo implica o empenho total nos problemas deste mundo. Afinal, se acreditamos que o próprio Deus veio ao mundo, é porque o mundo é um local muito especial. O Reino de Deus começa aqui e hoje, nesta nossa magnífica existência terrena.



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