5.8.05
a Europa cristã
Ana Vicente publica hoje no "Público" um texto interessante e pertinente. Chama-se "Os melhores alunos do cristianismo" e fala sobre a Europa. Essa Europa que continuamos a ouvir dizer ser necessário "recristianizar". Recristianiquê? A verdade é que a Europa é dos melhores sítios para se viver hoje. E é-o, como diz Ana Vicente porque os valores cristãos impregnaram na nossa cultura:
"(...)as populações que vivem na Europa, quer o reconheçam ou não, foram beber nos Evangelhos os seus valores mais preciosos: a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a justiça, a paz. É por isso que podemos afirmar, sem qualquer hesitação, que a Europa nunca foi tão cristã como agora.»

O "re" de "recristianizar" é particularmente absurdo. Alguém pretende voltar ao passado? A qual? Ana Vicente recordo os "bons velhos tempos" da nossa Europa católica:
«Milhões de europeus, entre os quais eu me incluo, viveram outros tempos mais sombrios e têm memória. Será que a Europa era mais cristã quando admitia a pena capital? Quando não considerava as crianças como pessoas, sujeitos de direitos? Quando as legislações discriminavam as mulheres, na família, no trabalho e na vida social e política, por serem mulheres? Quando não havia sistemas de segurança social, deixando os desempregados e os mais velhos na mais completa miséria? Quando não havia liberdade de expressão? Quando o método para resolver os conflitos era o recurso à guerra? Quando existiam os gulags e os campos de extermínio? Quando havia elevadíssimas taxas de analfabetismo? Quando homens e mulheres podiam ser legalmente hostilizados e até encarcerados, porque eram homossexuais? Quando os filhos nascidos fora do casamento eram discriminados na herança e impedidos de entrar para o Seminário? Onde em muitos países europeus havia sistemas políticos ditatoriais de direita ou de esquerda, que atentavam gravemente contra os direitos humanos? Onde não havia leis de trabalho, permitindo, assim, a mais abjecta exploração de crianças e de adultos, quanto a condições e a salários?»

Não há nada mais relativizador do que alguém a querer tornar absoluto aquilo que o não é. E há muita coisa que ainda é demasiado absoluta na nossa Igreja. Para o cristão só Deus é absoluto. O resto "é vaidade e vento que passa":
«Cada vez mais os cristãos europeus, católicos, ou de outras comunidades cristãs, como seres pensantes, sabem em que consiste a essência da sua fé, o maior dos mandamentos: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei." Por isso não entendem, ignoram ou lamentam, a insistência em normas eivadas pela sedimentação do tempo, por parte do Vaticano, com toda a relatividade que isso implica.
Sabem que o que é importante é serem responsáveis pelo nascimento e pelo cuidado dos seus filhos, ao longo da vida e que todos os métodos contraceptivos, quaisquer que eles sejam "iludem a natureza". Por isso os utilizam em total boa consciência. Sabem que é obrigatório, por imperativo moral, ajudar a diminuir a incidência do HIV-sida recorrendo, também, à promoção do uso do preservativo, não como remédio milagroso, mas como parte importante de uma política de prevenção. Sabem que a exclusão das mulheres dos ministérios ordenados é uma contradição gritante face ao valor da igual dignidade de todos os seres humanos, criados por Deus. Sabem que o casamento não é incompatível com o serviço do próximo, ou seja não percebem qual a mais valia da imposição do celibato obrigatório aos padres católicos. Sabem, ainda, que um processo participativo na escolha das autoridades civis ou religiosas é sinal de maturidade e civilização.
É este o desafio que a instituição Igreja Católica tem que enfrentar. Ao fazer acusações de relativismo moral, e mostrar descontentamento connosco, não estará esta a afastar precisamente os seus filhos mais obedientes, aqueles que concretizaram com alguma perfeição a mensagem evangélica embora, em muitos aspectos, com grandes falhas? São antes estes que estão a rejeitar o relativismo moral, na verdadeira acepção da palavra. Como bons alunos que são, sabem que na vida terrena nada jamais está adquirido, e que é sempre necessário procurar fazer mais e melhor. Por isso, não aceitam pôr em causa os valores que, em aliança com os seus irmãos de todas as confissões (ou de nenhuma), com tanto esforço, conseguiram transpor para o seu dia-a-dia. Valores que conseguiram integrar nas instituições políticas e sociais europeias, tendo em vista a dignidade terrena de milhões de pessoas.
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