26.8.05
Carta de Mãe de Pinóquia



Queria deixar expresso, a cada um dos animadores , directores e à mamã do campo de pinóquios um obrigado imenso.

Parece um obrigado qualquer, um desses educados, mas não é. É um obrigado imenso, como imensa veio a filha que fui buscar a Santa Apolónia numa tarde de Agosto. No fim dos comboios.

Ela trazia o nó na garganta do fim da linha, do fim dos dias e do fim , do que sentimos na hora, do mundo. Enrolou os braços na confusão de nos reencontrar e na vontade de não chegar. Enrolou a alma na comoção da hora, cantou “ Dias que passam “ como quem chora. Olhou-me intensa como quem diz que agora temos mais uma cumplicidade, esta a de fazer campos, esta a de ser do MOCAMFE. E estava uma luz bonita, um derrame dourado sobre a linhas dos comboios. E estava o rio tão perto. E também eu fiquei com um nó.

Também eu que a sei, fiquei feliz e supresa. Porque mais do que uns dias com estrelas, com o prado, com a desarrumação da tenda, com a saudade escondida (“ oh mãe... eu ás vezes tinha saudades e escondia para não me verem as lágrimas.... mas eu queria ficar dez dias como os turrinhas... mas eu já não me lembrava da tua cara e da do pai !”) com as rodinhas, com as canções ( “ ainda não posso apreender a tocar viola , tenho as mãos pequeninas “), com as caminhadas , com os amigos secretos, com os banhos de água fria e as latrinas ; mais do que uns dias diferentemente divertidos, ela soube a imensidão. Ela viveu e sentiu essa coisa indizível de que se faz o MOCAMFE. Talvez isso me tenha surpreendido.
Sabia que ao escrever-lhe o nome na ficha de inscrição lhe estava a escrever a hipótese de crescer o mundo. Sabia que ao deixa-la no comboio a estava a deixar ir mais longe. Mas não tinha pensado, com vagar, que lhe pudesse acontecer já essa imensidão . (“ Mamã achas que eu já tenho a tenda na alma ? .... já tenho. Mas falta-me por as malas. Nos próximos campos ponho as malas na tenda “). Não tinha pensado, com vagar, que tudo isso lhe coubesse já na alma... tão pequenina lhe é a vida.

Isso deixa-me muito feliz. Que maior dádiva pode haver ? e que imenso reforço de cumplicidade se criou.

Fomos no carro, para casa, junto ao rio. Cantamos “ São dias que Passam “ até me embargar a voz. Pediu-me para tomar banho de água fria, dormir no chão de casa e lavar a roupa à mão.
Disse-me que já não era .... “ palavra que tem c-a “.... caloira, que precisava de uma mochila maior, que era muito giro dançar com o Zé Milho, que no campo havia a melhor manteiga do mundo, que afinal gosta de salame de chocolate por lá faziam como deve ser, que o Sr. Filipe fez anos e lhe cantaram os parabéns à MOCAMFE, que fizeram uma directa e que os animadores disseram que eram 5h30 da madrugada mas que não tinha acreditado... achava que era meia-noite, que era muito pequenina e quase caia na latrina para ir buscar o papel higiénico, e que havia uma Catarina que era mesmo, mesmo Princesa de Holanda !, e que tinha visto uma constelação que era um papagaio, e que já não tinha medo de aranhas que tinham uma na tenda.... “ oh mãe... não sabia que tinhas escrito Cais de Setembro ...é um bocadinho seca, é lenta ... “ e perguntou-me se a partir de agora lhe podíamos chamar “ pulguinha “ lá em casa.

Disse-me que não queria que, para o ano, fossem muitos meninos conhecidos as escola aos campos. Para eu não convidar. Como se fosse um segredo, um bocado do mundo e de território da alma que não pode assim ser revelado ao mundo todo. “ Só o Filipe ( Granja )... que vai ser caloiro e eu vou encontrar em Coimbra “.

Perguntou-se se conhecia o Ricardo, irmão da Ana Azeiteiro, que fez de mulher e se conhecia os animadores e porque é que chamava Tecas à Teresa, e se conhecia o Gui da Kuki, e que o Zé Milho tirava muitas fotografias como eu. Disse-lhe que não, que não os conhecia mas os sabia um bocadinho. Só a Tecas com quem, num Caima antigo, tinha ficado na tenda.

Disse-lhe que era uma das mães invejosas que lhes escrevera para o campo, e que isso queria dizer que eu a sabia. Milímetro a milímetro. Simplificou essa inveja de mãe, “ Porque não se arranja um campo de férias para mães e pais ?”

Chegou a casa devagar como quem finge uma tenda gigante. (“ Porque é que nós, família, não podemos ir acampar sem ser no MOCAMFE ?”). Riu-se com a água morna e exclamou “ Nem sei o que é um ice tea !”. Adormeceu enrolada numa manta, num canto de um sofá, sem ter cumprido o pedido de telefonar à Sofia da tenda. Ficou quieta na noite da chegada.

Uhm...tem o mesmo cheiro, esquecido, o da roupa na mochila. Falta apenas o cheiro a fumo das fogueiras. A palha enrolada na roupa. As nódoas e a terra ... e a mochila foi apanhar ar para a varanda.

Acordou triste, na cama da casa dos dias de sempre. Acordou triste por saber que tinha acabado. Passou o dia enrolado nesse dolência triste e feliz. Contou com vagar as fotografias, repetidissimas, ao pai. Olhou-me sempre, castanho profundo, como se eu soubesse o que ela sentia.

Afastou o silêncio com conversa única dos campos. “ Mãe... um dia a Ana perguntou se sabíamos quem era o Hélder... só eu é que respondi. “ .“E o que disseste ?”. “ O Hélder foi quem inventou o MOCAMFE “.

Eu um dia, no dia da morte ou do encantamento, tinha escrito ao Ze David:

“Já sei do Hélder. Suspendo o tempo porque amanhã vou para a ilha. Porto
Santo. Lá, o mar e a areia são imensos e eu vou ter tempo. Vou ouvir mais por
dentro.
Hoje de manhã, na estrada, ouvi propositadamente a Biografia do Amor, do
Sérgio Godinho. Estão em muitas delas, as nossas violas, o nosso frio, a
nossa aprendizagem do amor, os nossos comboios a partirem e a alma
desfazer.
Sei tão bem como foi importante ter crescido com quem cresci, ter feito as
caminhadas que fiz, ter apreendido a ver as estrelas, a ouvir pequenos
ruídos do mundo e da alma... que é impossível eu não ter uma vontade imensa
e poderosa de que, um dia, as minhas filhas possam apreender também tudo
isso. Sobre a minha memória já tive tempo para saber da importância, do
sossego e desassossego, do MOCAMFE e nela do Hélder também. Disse-lho
algumas vezes em pequenas e intemporais cartas ou postais de Natal.
Agora sinto que cumprir o Hélder é permitir que, um dia, as minhas filhas
possam apreender no MOCAMFE as pequenas imensas coisas da vida. Sinto que
isto é mais importante e forte do que sussurrar a memória e tentar
comovidamente dizer-lhe adeus.
Vou chorar, porque dói. Mas vou jurar, que hei-de fazer mais campos pelo
MOCAMFE e cantar uma noite para ele. “

Senti naquela hora que o tinha começado a cumprir. Ela fez-mo saber. Quis depois ver-lhe os olhos azuis na fotografia que lhe mostrei.

“ Tenho saudades do campo “ murmurou ao deitar-se.


E eu disse por dentro : “ também eu “.

Não me despeço de campo algum mas tenho presente a despedida. Tenho todos os outros pais invejosos tão perto de mim e sinto o que sentia quando deles me despedida, na mesma estação, agora feita azul no nosso ocre antigo. E a voz que me embargava ao cantar “ São dias que passam “ era a mesma de quem se despede de quem ainda agora mesmo estava ao lado à espera do comboio, a mergulhar na cerveja, a trocar as linhas da chegada. Como se vivesse as pontas da eternidade. A sabedoria do tempo, essa coisa pequena de ser para sempre.

Queria deixar expresso, a cada um dos animadores , directores e à mamã do campo de pinóquios um obrigado imenso. Certa de que este agradecimento é partilhado pelos outros pais invejosos. Carta de uma mãe, de uma qualquer, de pinóquios.

Helena Morais
Agosto 2005



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